Sun Yat-sen e Macau

1895 e a revolta fracassada de Cantão

Sun Yat-se no Hospital Kiang Wu 1912Sun Yat-sen no Hospital Kiang Wu, 1912. 

Por ocasião da passagem de Sun Yat-sen por Macau, em 1878, a colónia portuguesa era, tendo em conta a total letargia do resto da China, um dos poucos locais onde se poderia encontrar embriões de mudança. Associações de todo o norte exerciam intensa actividade, com destaque para a Tong Sin Tong, que ainda hoje continua a prestar serviço na área da assistência social. Todas elas evitavam no entanto cuidadosamente tomar atitudes explicitamente políticas. As vertentes políticas em Macau apenas se reconheciam nas sociedades secretas, ainda que de um modo puramente ritualista, nomeadamente ao nível das cerimónias iniciáticas que incluíam o juramento de combater a dinastia Ching e restabelecer o trono Ming. Quanto ao resto, as sociedades secretas eram, na prática, associações de malfeitores que só ocasionalmente prestavam serviços de índole política. Fosse como fosse, entre a comunidade chinesa o desejo de mudança começava a tomar forma, à medida que a história fazia a sua caminhada na segunda metade do século XIX. Numa cidade que punha termo ao infame comércio dos cules, Macau explorava diversos ramos de actividades lucrativas. Os comerciantes locais de médios recursos e módicas ambições viviam de um relacionamento comercial regional, já que a comunidade de negócios de Hong Kong se encarregava de polarizar os grandes lucros e as grandes iniciativas de contacto com outras regiões do mundo. Mesmo assim, era entre a classe de comerciantes locais que as ideias políticas circulavam e se expandiam. Devido, talvez, à pacatez do território, que não conhecia a actividade febril de Hong Kong, Macau viu formar-se no seu seio um escol de pensadores que gerou figuras intelectuais de grande dimensão, como Zheng Guan-yin (1842-1921), um teórico do liberalismo, defensor da transformação do império numa monarquia constitucional e apologista do desenvolvimento industrial da China. Zheng Guan-yin, autor de vários trabalhos sobre temas político-económicos, notabilizar-se-ia na sua obra “Advertências Severas na Época Próspera”, em que expunha extensamente o seu ideário sobre as reformas sociais, políticas e económicas necessárias para salvar e desenvolver o país. O pensamento de Zheng tornou-se doutrina e influenciou várias gerações, atingindo mesmo o fundador da República Popular da China, Mao Tsé-tung, que o lia, na adolescência, às escondidas do pai. Zheng Guan-yin terá sido, também, um dos que primeiro influenciou o pensamento político de Sun Yat-sen (que com ele conviveu em Macau).

Outras figuras se destacavam já no despertar da consciência nacional chinesa em Macau. Entre elas contava-se Kang Iu-vai, o principal motor da escola reformista da China. Oriundo da aristocracia mandarínica, Kang Iu-vai enfileirava pelos princípios liberais e reformistas de Zheng Guan-yin mas, ao contrário deste, não se limitava a um papel meramente teórico: era um homem de acção, que lutava para pôr em prática as suas ideias. Começando por ser porta-voz, em Pequim, do protesto dos estudantes contra o sistema milenário de exames para acesso ao vasto corpo do funcionalismo público na China, Kang Iu-vai acabou por se fazer ouvir, captando a atenção do próprio imperador Kang Yi, de quem se tornou um dos conselheiros privados. Pôde, então, influenciar decisivamente o trono, de modo a elaborar um conjunto de legislação destinada a transformar a China num estado monárquico constitucional moderno. A sua acção viria, no entanto, a ser interrompida pelo golpe de estado da imperatriz Tsu Zsy que, irrompendo em Pequim de um auto-exílio em Xian (antiga capital do império) afastou o jovem Kang Yi e os seus conselheiros liberais, repondo a autocracia imperial na sua mais férrea originalidade.

Entretanto, o pensamento e a actividade daqueles dois reformistas reflectiam-se na sua maior plenitude, em Macau, na altura em que Sun Yat-sen regressava do Havai para prosseguir os estudos na Escola Diocesana de Hong Kong. Corria então o mês de Novembro de 1883. Para além de uma congénita irrequietude de espírito, Sun Yat-sen carecia ainda de qualquer formação ideológica definida, que só viria a adquirir na colónia britânica, ao acompanhar os seus estudos de empenhada participação política. Sempre que visitava a terra natal em Zhongshan, Sun escalava religiosamente Macau frequentando as tertúlias da embrionária, jovem e confusa oposição ao regime da China. É então que, juntamente com outros três colegas e conterrâneos, Sun se começa a notabilizar pela prática de actividades subversivas, levadas a cabo a partir de um quartel-general provisório, situado numa casa da Travessa dos Santos, íngreme perpendicular à Rua do Campo, cujo proprietário, Yang He-ling era um dos elementos do grupo. O empenhamento e militância de todos em breve levou a que se tornassem conhecidos pelo “Bando dos Quatro”. Pese embora o carácter confesso das actividades a que se dedicavam, os quatro militantes não parecem, contudo, ter ido suficientemente longe para concitar as atenções quer das autoridades coloniais portuguesas, quer da sua polícia secreta (pelo menos até agora não foram encontrados quaisquer documentos relativos a qualquer deles nem à casa subversiva de Yang He-ling, que despertaria as atenções da polícia, só que trinta anos mais tarde). Mas, se em Macau as actividades de Sun não se tornavam conhecidas no seio da comunidade portuguesa, já o mesmo não sucederia em Hong Kong. Participando em diversas manifestações contra o regime de Pequim, ali se envolveu em campanhas subversivas, nomeadamente nas greves dos trabalhadores portuários que paralisaram Hong Kong. Na colónia britânica, o nome de Sun chegou mesmo a ser ligado a alguns atentados bombistas, sabendo-se que, pelo menos, participou no fabrico de bombas artesanais. Benificiando, embora, de protecção por parte de influentes figuras da comunidade de Hong Kong, Sun não escaparia, mesmo assim, às malhas da polícia.

Parece ter sido deste modo que, no âmbito das andanças forçadas pelos tribunais da vizinha colónia, Sun terá conhecido Francisco Hermenegildo Fernandes, um intérprete judicial oriundo de Macau, que se tornaria um dos seus grandes apoios políticos e, em última instância, lhe viria a salvar mesmo a vida alguns anos depois.

Nascido em Macau a 13 de Fevereiro de 1863, Francisco Hermenegildo Fernandes era filho de Nicolau Tolentino Fernandes e de Maria Isabel Fernandes, família macaense que se encontrava ligada à imprensa local através da Tipografia Mercantil, de que era proprietária. Entre outras actividades, era esta tipografia que se encarregava da publicação do Boletim Oficial da Colónia, bem como da impressão de alguns dos jornais diários e semanários que iam sobrevivendo, em português. Dominando diversos dialectos chineses – nomeadamente cantonense e Mandarim (para além do inglês e português que falava fluentemente), Francisco Fernandes parte para Hong Kong depois de concluir os seus estudos secundários, e aí se radica. Na vizinha colónia, para além de manter ligações com a imprensa portuguesa de Hong Kong, integra os quadros da estrutura judicial britânica, na qual se destaca pelos dotes linguísticos e de inteligência que revela e que, inclusivamente, lhe valem um louvor público do Supremo Tribunal. Depois de trabalhar alguns anos nas secretarias judiciais britânicas, Francisco Fernandes opta pelo regresso a Macau, a fim de dirigir a tipografia da família. Ao mesmo tempo, dedica-se, por inteiro, à actividade jornalística, iniciando a publicação de “O Echo Macaense”, jornal “político, literário e noticioso”. O “Echo”, que pretendia defender os interesses dos macaenses, reflectia orientações políticas de grupo, que iam desde certa facção macaense não afecta aos círculos tradicionais da Igreja Católica e a ela ligados, a alguns sectores da administração pública da Colónia, com destaque para o próprio governador Horta e Costa, que tinha no jornal um estrénuo defensor. Pelas conotações da publicação se podiam, desde logo, deduzir as relações pessoais de Francisco Fernandes. Entre elas, contavam-se o destacado causídico macaense António Joaquim Basto que, com o seu colega e rival Senna Fernandes, disputava o monopólio das ligações entre a comunidade chinesa e a administração da Colónia. Socialmente bem relacionado e proprietário de um jornal, que tinha, à partida, o beneplácito do Governador, Francisco Fernandes seria em Macau a figura por quem muitas portas seriam abertas a Sun Yat-sen e que, ao mesmo tempo, o protegeria nas mais diversas circunstâncias.

Sun Yat-sen e o “Bando dos Quatro” na casa da Tarvessa dos Santos em Macau. 

Entretanto, Sun Yat-sen concluía em Julho de 1892 o curso de medicina, não sem antes se ter tornado notado pelos professores. De facto, o espírito vivo e dotes de inteligência de discípulo tornaram-no o preferido de vários mestres, entre os quais James Cantlie, Deão da Faculdade e também reputado investigador no campo da medicina tropical, com quem jogava cricket. Com efeito, só a protecção de Cantlie terá poupado a Sun muitos dissabores com as autoridades de Hong Kong,devido às actividades subversivas a que se dedicava; contudo nem a sombra protectora do mestre foi suficiente para que, após finalizar o curso, conseguir exercer medicina na colónia britânica. Assim, não restou a Sun outra alternativa senão a de se transferir para Macau, onde integrou o corpo clínico do Hospital Kiang Wu, única unidade hospitalar chinesa do enclave português. O Kiang Wu era, além disso, propriedade da Associação de Beneficência Tong Sin Tong, à qual pertenciam muitos comerciantes locais ligados ao movimento reformista liderado por Kang Iu-vai, e cujo principal ideólogo era Zheng Guan-yin. Nesta fase da sua vida, porém, Sun Yat-sen já não passaria despercebidamente por Macau, ao contrário do que até então sucedera.

Sun Yat-sen, Macau e a revolta de 1895

Pondo em prática os ensinamentos que adquirira segundo padrões ocidentais, Sun Yat-sen começou a sua actividade no Hospital Kiang Wu tentando introduzir os conceitos clínicos europeus numa estrutura ancilosada, composta por uma espécie de “mestres-curandeiros” formados no empirismo da milenar tradição médica chinesa profundamente conhecedora dos poderes curativos da botânica, mas por completo ignorante da síntese química e das modernas técnicas terapêuticas e cirúrgicas. Neste último domínio, especialmente – e contrariamente às práticas ocidentais – as intervenções cirúrgicas praticavam-se, na China, em amplas salas perante numerosa assistência composta não só por médicos, mas também por simples curiosos que, em círculo, acompanhavam todas as fases das operações. Sun Yat-sen, ao revolucionar métodos e introduzir novas técnicas não pôs termo no entanto a este costume, operando também rodeado por verdadeiras multidões que não perdiam um segundo da “acção” que se desenrolava no teatro anatómico do hospital Kiang Wu. Nas operações mais complicadas, Sun contava ainda com a presença de ex-professores de Hong Kong, que se deslocavam propositadamente a Macau para assistir o jovem médico. O mais assíduo destes mentores era James Cantlie, que descreve assim a teatralidade que rodeava as operações que não deixavam também de ter a sua componente política.

“As intervenções cirúrgicas na China não são feitas no ambiente de privacidade que caracteriza essas delicadas funções entre nós [no Ocidente]. as efectuadas por Sun, compareciam não só a Comissão de Leigos do hospital – que se sentavam próximo da mesa de operações – como também os parentes e amigos do paciente que se mantinham de pé, seguindo atentamente todas as fases da intervenção. De particular interesse para a assistência revestiam-se, especialmente, as operações destinadas a remover cálculos, já que tal padecimento era frequente naquela região do país. A série de incisões que o cirurgião necessitava de fazer para atingir os ditos cálculos, suscitava uma ansiosa necessidade de renovação de ar por parte da assistência que, nessas ocasiões de clímax, abanava vigorosamente os seus pequenos leques, assim produzindo a ventilação suficiente para evitar desmaios dos espectadores (note-se que, no Sul da China, todos os cavalheiros trazem consigo um pequeno leque). Quando, por fim, os cálculos eram removidos e mostrados à assistência, todos se sentiam amplamente recompensados do “sofrimento” e suores frios suscitados pelas sangrentas manipulações do operador, premiando a exibição dos ditos com exclamativos “Hi-ays!” e outras expressões de aliviado fascínio”. À medida que as operações iam tendo sucesso e que as drogas da medicina ocidental produzindo efeito numa população chinesa endemicamente afectada pela tuberculose, pelo tifo e, muitas vezes, pela peste bubónica, Sun ia ampliando o seu prestígio. Para ele, aliás, o exercício da medicina era apenas um instrumento que utilizava como forma de propagandear as vantagens das técnicas e conhecimentos ocidentais, numa vertente marcadamente política. No entanto, provavelmente para melhor poder garantir a sua subsistência, decidiu abrir um consultório de doenças pulmonares e, simultaneamente uma farmácia, num pequeno edifício de dois pisos na estreita Rua das Estalagens. Mas ao contrário do que seria de esperar, tanto o consultório como a farmácia, muito mais do que centros de atendimento de saúde, passaram de imediato a constituir locais de reunião de conjurados, e sede partidária dos reformistas, a quem Sun se encontrava então fortemente ligado.

No campo da militância, Sun Yat-sen também não perdeu tempo. Ao chegar a Macau, lançou-se na fundação de um jornal que pudesse difundir as ideias da reforma constitucional da China e da necessidade de ocidentalização do país. Para isso, recorreu ao seu amigo Francisco Fernandes, com o qual pôs de pé, em pouco tempo, o projecto. Tendo o próprio Sun como redactor principal, as máquinas da Tipografia Mercantil passaram então a publicar o jornal reformista em chinês, sendo as matérias mais importantes traduzidas para português nas páginas do “Echo Macaense”, ampliando-lhes os efeitos. O jornal ganhou projecção, e em breve, era vendido não só em Xangai, Cantão e noutros pontos da província de Guangdong, mas também no Ultramar, nomeadamente nas colónias chinesas do pacífico. O papel do “Echo Macaense” junto da comunidade portuguesa de Macau era acompanhado, em Hong Kong, pelos jornais ingleses “China Mail” e “Telegraph”, que apoiavam a causa reformista e promoviam a figura de Sun Yat-sen.

Enquanto o periódico se encarregava de levar mais longe o pensamento de Sun e seu pequeno grupo de correligionários, (onde ainda não pontificava), o jovem médico desdobrava-se em actividades, preparando activamente os espíritos para uma tentativa arrojada: derrubar o governo de Cantão.

Para que tal fosse possível apesar do estado de exaustão de todo o império (incluindo Guangdong) e da completa indisciplina militar reinante, seria preciso muito mais que os poucos ideólogos do movimento reformista liderado por Kang Iu-vai e o seu reduzido grupo de activistas, entre os quais se contava Sun. Mas para este (a quem não faltava optimismo e entusiasmo) era quanto bastava para arregimentar as massas contra um regime que não cedia às correntes do progresso, nem às lições da história. Fosse como fosse, no entanto Sun ainda acreditou por algum tempo que as advertências feitas às autoridades chinesas, designadamente através dos jornais, fossem capazes de abrir os seus espíritos ao mundo, não se coibindo, por isso, de escrever pessoalmente ao governador de Guangdong dando-lhe conselhos sobre administração pública no intuito de contribuir para que se pusesse termo à situação catastrófica que se vivia na agricultura em Guangdong. Mas as suas esperanças em breve cairiam por terra.

Entretanto, em Macau, a notoriedade de Sun Yat-sen foi-se acentuando ao fim de poucos meses de actividade, passando a ser visto com maus olhos pelos sectores tradicionais da comunidade portuguesa. Do seu lado apenas tinha Francisco Fernandes e o advogado Joaquim Basto, contando através destes, diga-se com a simpatia do próprio governador Horta e Costa. No entanto, outros sectores – entre os quais a Igreja Católica – opunham-se não só às actividades do jovem médico chinês, como às suas ideias políticas que afectavam (ainda que indirectamente) o status-quo. À medida que os meses passavam e a fama de Sun aumentava, crescia não só a polémica, mas acentuava-se o confronto, o que levou, finalmente, a que fossem tomadas medidas contra ele. Assim, aproveitando o facto de Sun Yat-sen não possuir diploma de médico passado por qualquer universidade portuguesa, como a exigia a lei, o caso foi levado formalmente às autoridades, que não tiveram outra alternativa senão proibir a Sun, ainda que a contra-gosto, o exercício da profissão em Macau. Confrontado com os factos, Sun foi obrigado a tomar a decisão que iria precipitar os acontecimentos da sua vida: mudou-se para Cantão.

Desiludido pela ineficácia da oposição que se limitava à estéril exposição de teorias políticas e nada mais, Sun Yat- sen decidiu por algum tempo abandonar a actividade militante, dedicando-se exclusivamente à medicina. Abriu então uma cadeia de farmácias em Cantão, ao mesmo tempo que escrevia as suas ideias políticas a fim de as levar ao Grande Secretário Imperial (primeiro-ministro) Hung Cheng, cuja chancelaria se encontrava na cidade de Tientsin.Escusado será dizer que a tentativa estava, à partida, condenada ao fracasso. Mas mesmo assim Sun não desistiu conseguindo fazer chegar o seu trabalho a Tientsin, embora não ao Grande Secretário que não parece ter tido nunca oportunidade de se debruçar sobre as ideias de Sun e muito menos ter considerado a hipótese de o receber pessoalmente. Sun ainda era uma figura demasiado anónima para fazer despender um segundo que fosse da atenção do chefe do governo imperial. Cansado de esperar por uma resposta que não vinha Sun Yat-sen acabaria então por reformular os seus princípios e considerar seriamente a revolta como única forma de se fazer ouvir. No entanto, as massas, na China, continuavam como sempre tinham estado; miseráveis e ignorantes, constituindo um campo onde a política não colhia. Mas se estes eram os factos nada impedia porém que o lançamento da revolta acordasse o povo amorfo, pensava Sun. Assim, decididamente, abandonou de novo a medicina para se lançar agora na preparação activa de um golpe que derrubasse o governo de Cantão, peça chave para a transformação do Império. Para o efeito, contava com pouco mais de uma centena de conjurados distribuídos por Cantão, Macau, Hong Kong e Honolulu, que constituíam um grupo de fiéis arrebatados, dispostos como ele a derrubar a autocracia, ou morrer. O embirro da conjura nasceu na capital havaiana para onde Sun se deslocou, fundando ali em Novembro de 1894 uma associação secreta denominada “Sociedade para Restaurar a Prosperidade da China” (Hsing Chung-hui), com o propósito de derrubar o regime Ching. Uma filial desta associação seria formada em Hong Kong em Fevereiro de 1895. E tudo indica que, pela mesma altura (1895), a Hsing Chung-hui tenha sido estabelecida também em Macau. Ao que parece, a sede estaria situada no número 11 do Pátio da Gruta, (edifício demolido em 1988) onde residia o comerciante Ho Sui Tin, um dos que contribuiu financeiramente para os preparativos da revolta. Outra hipótese em aberto para a localização da sede é também a residência de Yang He-ling na Travessa dos Santos, antigo ponto de encontro do “Bando dos Quatro”.

Os conjurados, incluindo Sun, eram todos jovens ocidentalizados formados em escolas protestantes de Hong Kong e do Havai. Nenhum deles pertencia à aristocracia reformista, que ostensivamente se divorciara, progressivamente, das suas actividades na sequência da guerra sino-japonesa (1894- 1895). Tomando a seu cargo os planos concretos do assalto a Cantão, a Hsing Chung-hui iniciou a compra de armas e o recrutamento de homens entre os filiados nas diversas associações secretas da tríade (a que Sun também pertencia), os quais iam sendo incorporados com um salário mensal de 10 dólares de Hong Kong por cabeça. Apesar da exiguidade de forças e da duvidosa capacidade de combate dos mercenários da sociedade secreta, os planos prosseguiram até a marcação da data da insurreição prevista para o dia 26 de Outubro de 1895. Coincidindo com o dia dos Fiéis Defuntos na China, os revoltosos contavam que os seus movimentos fossem menos notados, devido ao facto de se encontrarem então, tradicionalmente, nas ruas, grandes multidões que se dirigem aos cemitérios a fim de honrar os seus mortos. O ataque a Cantão partiria coordenadamente de várias direcções tendo como alvo diversos departamentos do governo considerados estratégicos que deveriam ser ocupados. No entanto, nos dias que antecederam o golpe, tudo começou a correr mal. Uma lista de conjurados bem assim como a Proclamação dos revoltosos caiu nas mãos da polícia obrigando à tomada de medidas de segurança de emergência, o que dificultou o prosseguimento das operações, a menos de uma semana da data marcada. Finalmente, na véspera da insurreição, os líderes dos mercenários – que deveriam embarcar num ferry-boat em Hong Kong com destino a Cantão juntamente com os seus homens – envolveram-se numa disputa pela partilha das armas, deixando o navio partir sem eles. Este facto provocou a descoordenação que viria a ser fatal aos planos. Em Cantão, Sun Yat-sen manda suspender as operações depois de ter recebido um telegrama com as más notícias, enquanto em Hong Kong os chefes da Tríade, resolvida a disputa, embarcavam no navio do dia seguinte, tentando uma atabalhoada reactivação dos planos. O adiamento, no entanto, revelou-se irreparável para os insurrectos, já que, após algumas hesitações, a polícia britânica de Hong Kong (que se encontrava a par de todos estes movimentos) decidia informar o governo de Cantão sobre o que se passava. O massacre foi, por isso, inevitável a chegada do navio ao porto de Cantão tropas chinesas tomaram-no de assalto, apreendendo as armas que vinham dissimuladas nos porões, no interior de tambores ostentando a marca de cimentos “Portland”. A maior parte dos mercenários foi detida, embora alguns tivessem conseguido escapar na confusão do momento. No entanto, os membros da Hsing Chung-hui eram todos presos, ou mortos, pela polícia no navio e nos esconderijos onde se refugiavam, na cidade de Cantão. Todos seriam barbaramente executados, na sequência de processos sumaríssimos, com apenas uma excepção: Sun Yat-sen, que conseguira escapar, escondendo-se em casa de um missionário protestante americano, seu amigo. Nos dias subsequentes à tentativa frustrada de golpe, Cantão viveu sob lei marcial, registando-se prisões em massa. Enquanto isso, Sun aguardava oportunidade de poder fugir da cidade. Logo que ela surgiu, discretamente auxiliado por simpatizantes e amigos, Sun Yat-sen iniciou um percurso de fuga de mais de 200 quilómetros, utilizando as sampanas que cruzavam os canais dos arredores e escondendo-se por onde podia em abrigos provisórios até alcançar Macau – único ponto de refúgio possível. Depois de uma verdadeira odisseia rodeada de perigos e ciladas, Sun alcançou as Portas do Cerco entrando em Macau disfarçado de mulher, recolhido no interior discreto de uma  cadeirinha carregada aos ombros de três cules que o transportaram até casa do seu amigo Francisco Fernandes, na Rua da Casa Forte número 3.

Antes de fugir de Cantão, no entanto, Sun era já o mais procurado inimigo do império, e a polícia chinesa esquadrinhava os quatro cantos de Guangdong em sua perseguição. Macau não constituía excepção. Com efeito a polícia imperial percorria as ruas da colónia portuguesa alertando informadores, e distribuindo os cartazes anunciando a recompensa pela sua captura.

Sun Yat-sen. Fotografia oficial dos serviços de Imigração de S. Francisco, EUA. Maio de 1988 data da primeira entrada de Sun Yat-sen nos Estados Unidos da América.

Sobre os acontecimentos que tinham tido lugar em Cantão, a população portuguesa em geral pouco ou nada sabia. A imprensa fizera-se eco apenas nas páginas interiores do “Echo Macaense” de 30 de Outubro de 1895 de que, no anterior dia 10, “embarcaram em Hong Kong grande número de chineses maltrapilhos que disseram à polícia de Hong Kong que se iam alistar em Cantão como soldados”. O jornal informava também que os tais “maltrapilhos” pertenciam a várias sociedades secretas, e eram oriundos de Chiu Chau. E, a concluir, a notícia avisava: “Convém que as nossas autoridades tomem as devidas precauções porque, se a notícia for verdadeira, podem contar como certo que esta cidade será valha couto de refugiados e malandros. Depois, já aqui estamos sofrendo as consequências de grande aumento da população chinesa e de casos de roubo”.

O articulista, que contava apenas uma ínfima parcela do que na realidade se tinha passado em Cantão, não se enganava, porém, no aviso que fazia às autoridades de Macau, embora não incluísse no rol dos “refugiados e malandros” o chefe da revolta, cuja identidade afirmava ser desconhecida, mas que o director do jornal conhecia bem. Francisco Fernandes franqueou a porta a Sun Yat-sen mantendo rigorosamente em segredo a sua presença enquanto iniciava diligências a fim de lhe preparar a fuga para o Japão. As iniciativas que tomou não se conhecem, mas provavelmente terá utilizado os bons serviços do advogado Joaquim Basto, e conseguido a garantia do Governador de que mandaria a polícia fazer ouvidos moucos a quaisquer rumores sobre a presença do revolucionário chinês na cidade. Enquanto isso, dispunha igualmente a sua rede de influências no seio da comunidade portuguesa de Hong Kong, a fim de garantir a passagem discreta de Sun Yat-sen pela colónia britânica o tempo estritamente necessário a fim de que pudesse embarcar rumo ao Japão. Até Hong Kong, o seu percurso estava já assegurado pelos serviços dos juncos piratas, cujos patrões pertenciam, como Sun, à Tríade.

Não se sabe quanto tempo terá o revolucionário permanecido escondido em Macau, mas é certo que os esforços de Francisco Fernandes e seus amigos foram coroados de êxito. Sun Yat-sen conseguiu embarcar discretamente até Hong Kong, e dali para Kobe, no Japão, onde o governo do Sol Nascente lhe dispensaria toda a protecção.

João Guedes

Nota: – Artigo originalmente publicado na Revista da Cultura (ICM), 1992

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