Sun Yat-sen e Macau

Macau revolucionário no dealbar do século XX

Postal de Macau de 1900. Grémio Militar (actual Clube Militar) 

Após a fuga de Cantão através de Macau, Sun Yat-sen iniciaria verdadeiramente a sua peregrinação revolucionária pelo mundo, mobilizando simpatizantes e recolhendo fundos para as sucessivas insurreições que despoletaria nos anos seguintes na China. Logo após o rapto de que foi alvo em Londres pelos agentes secretos da embaixada da China, o professor James Cantlie, juntamente com o jornalista Sheridan Jones, publicam o livro  “Sun Yat-sen and the Awakening of China”, obra que internacionalizava o prestígio do jovem revolucionário e lhe ganharia as simpatias ocidentais. Sun manter-se-ia, assim afastado de Macau durante cerca de 17 anos mas, na colónia portuguesa, as sementes revolucionárias que plantara cresciam e davam frutos. Na sequência da desastrosa tentativa de Cantão o partido Reformista de Kang Iu-vai, defensor da manutenção da monarquia apenas queria torná-la num sistema constitucional moderno excluindo o ideário republicano que começava a ganhar cada vez mais adeptos. Em Macau eram os reformistas que dominavam claramente a situação.

Sir James Cantlie médico. Professor e mentor ideológico de Sun Yat-sen.

Leong Kai-chiu, um dos lugar-tenentes de Kang Iu-vai encarregava-se de liderar a actividade dos reformistas através de uma outra associação secreta, a Huang Ti Hui (Sociedade para a Protecção do Imperador), que tinha sido fundada em Vancouver no Canadá em 1899, por Kang. A associação mantinha, pelo menos, duas escolas em funcionamento e intervinha a vários níveis no domínio da assistência social, nomeadamente através da poderosa Associação de Beneficência Tong Sin Tong. Além disso, criara um jornal ” O Reformador da China” que se distribuía profusamente em Hong Kong e Cantão e chegava também a várias cidades do norte e às colónias chinesas no estrangeiro. Publicado em Macau, o “Reformador da China” era o órgão central do Partido, suportado financeiramente pelo magnate Ho Sui-tien, líder em Macau. O facto de a impressão do “Reformador da China” ser feita na colónia portuguesa permitiu que se continuasse a publicar e a chegar à China mesmo após o golpe de 1898 da imperatriz Tsu Hzi, enquanto outros jornais partidários nomeadamente em Cantão eram violentamente encerrados e os seus promotores presos.

O livro que tornaria internacionalmente conhecida a figura de Sun Yat-sen. Escrito em parceria entre James Cantlie e o jornalista C. Sheridan Jones.

Face às características menos radicais dos reformistas as suas actividades eram encaradas de outra maneira pelas autoridades portuguesas que não interferiam, protegendo mesmo quando era caso disso os que caíam na mira do governo de Cantão. Pertencendo na sua maioria ao sectores da burguesia comercial ou da aristocracia mandarínica os reformistas ofereciam à partida garantias de menos embaraços aos sucessivos governadores da colónia portuguesa onde as actividades dos simpatizantes do radical Sun Yat-sen eram vistas com desconfiança e susceptíveis de causar danos nas relações com o governo de Cantão, ou mesmo com o governo central com quem havia que manter sempre pelo menos uma aparência de boa harmonia e cooperação. Embora os correligionários de Sun Yat- sen fossem na sua esmagadora maioria jovens ocidentalizados e em grande parte cristãos constituíam um perigo maior pois defendiam não só as ideias republicanas que o governo português também combatia, como se revelavam hostis à presença estrangeira na China, pelo menos sob a forma de colónias( como eram exemplos Macau e Hong Kong), apesar de se servirem destes dois territórios como importantes bastiões de apoio, locais de refúgio e centros de agitação. Por outro lado a sua associação com os bandos de piratas e com a Tríade constituía outro motivo de preocupação. Esta política do governo português de Macau, não impedia no entanto que fosse prestada discreta protecção aos oposicionistas chineses que eventualmente aqui se refugiavam, ou se tornavam notados pelo governo da província de Guangdong que frequentemente pedia a extradição de inimigos políticos ao governador português ao abrigo de acordos existentes.

Neste âmbito é exemplar o caso do mandarim Keng Ling-san – que fugiu para Macau na sequência do golpe de estado da imperatriz Tzu Hzi e que o governador Rodrigues Galhardo, foi obrigado a mandar prender face a um pedido formal de extradição do vice-rei T’an Chung-lin. Decidido a conceder-lhe protecção e não a cumprir o pedido de Cantão, o governo português criou no entanto tantos embaraços jurídicos quantos pode à formalização da extradição utilizando toda a sorte de manobras dilatórias até encontrar a melhor forma de resolver a situação. A táctica adoptada resultou em pleno e no final de dois anos de moratórias o mandarim pode ser libertado sem criar já tensões no relacionamento com o governo de Cantão que na prática perdeu a causa. Refira-se no entanto que o processo não decorreu inteiramente sem sobressaltos e que a complacência do governo português esteve longe de ser espontânea. De facto o mandarim teria sido mesmo repatriado se a sua prisão não tivesse tido eco na imprensa de Hong Kong que considerou o caso um escândalo e se simultaneamente os comerciantes locais não tivessem ameaçado o governador com uma paralisação geral.

Horta e Costa. Governador de Macau em 1900.

Apesar da política de tolerância do governo português para com os revolucionários chineses a administração colonial permanecia tio atenta quanto podia aos seus movimentos e actuava mesmo quando as suas acções ultrapassavam os limites considerados aceitáveis de modo a não porem em risco as relações entre Portugal e a China. Encarregava-se da vigilância do mundo chinês a Repartição dos Assuntos Cínicos (RAS), um departamento administrativo do governo que podia considerar-se como uma espécie de serviços secretos de Macau. Dotada de um quadro de agentes chineses e de intérpretes tradutores a RAS complementava os serviços de polícia, os quais mantinham também uma secção de investigação, permanecendo, tanto quanto podia, atenta essencialmente aos fenómenos políticos internos que iam desde a censura aos jornais teatros e cinemas até ao controlo dos comícios e de figuras suspeitas de actividades subversivas. A RAS era directamente tutelada pelo próprio governador que decidia sempre em última instância, sobre os processos em curso. Na sua actividade de manutenção da estabilidade e dos instáveis equilíbrios que se verificavam no seio da comunidade chinesa, tendo sempre em atenção a vizinha e poderosa China a RAS confrontava-se com um volume demasiado grande de serviço burocrático acabando por despender grande parte dos seus esforços no domínio da tradução de documentos, licenciamentos e fiscalizações rotineiras. Restava-lhe, assim, pouco tempo para um efectivo controlo político da comunidade chinesa.

A situação manteve-se todavia sob relativo controlo até ao final do século XIX momento em que a agitação revolucionária se incrementou com a decidida ascensão dos republicanos de Sun Yat-sen no seio do movimento revolucionário chinês e o consequente isolamento dos reformistas cujas teses perdiam terreno à medida que a irredutibilidade do governo central de Pequim se acentuava rejeitando quaisquer veleidades constitucionais. O corte radical entre reformistas e republicanos seria selado em 1900, na sequência da segunda tentativa de Sun Yat-sen para derrubar o governo de Cantão e proclamar a independência das províncias gémeas de Guangdong e Guanxi. Alarme no princípio do século A tentativa revolucionária de Sun Yat-sen, no Veräo de 1900 mais uma vez contou com o apoio da Tríade que se dividia por quantos bandos de piratas cruzavam o rio das Pérolas, muitos dos quais mantinham os seus quartéis generais em Macau. Através de Macau passavam também as espingardas e munições que armavam esses grupos cujo número chegava a ser de 200 a 300 homens em pequenas armadas que assolavam a província de Guangdong. A suspeita levantada já em Macau em Maio de 1896 de que tais “quadrilhas armadas se poderiam combinar sob um chefe forte para derrubar o governo” confirmava-se três anos depois quando, Sun decide reactivar a sua organização revolucionária em Hong Kong e Macau empenhando-a na arregimentarão desses bandos para uma operação semelhante a insurreição fracassada de 1895. Encarregou-se do recrutamento dos insurrectos Cheng Shi-liang que estabeleceu quartel general em San Chou-tien, uma ilha conhecida por ser abrigo de piratas, situada no rio das Pérolas a cerca de dez quilómetros da costa chinesa e a menos de 20 da fronteira dos Novos Territórios de Hong Kong. A revolta aproveitava o estado de confusão reinante no país pelo pronunciamento dos Boxers no norte, que tinha lançado a China no caos e servido os apetites colonialistas das potências ocidentais que ameaçavam dividir o velho continente em várias esferas de influencia desintegrando o trono. As hesitações de Sun Yat-sen que chegou a considerar, juntamente  com o governador de Cantão, Li Hung-chang, a hipótese de proclamar a independência das províncias do sul, levaram a que as movimentações dos rebeldes em San Chou- t’ien chegassem ao conhecimento das autoridades imperiais o que fez com que o exército improvisado de Cheng Shi-liang fosse obrigado a pronunciar-se marchando sobre a capital distrital. ali, num confronto com um destacamento imperial, obteve uma decisiva vitória que lhe permitiu ganhar aderentes e continuar em direcção a Cantão objectivo designado pelo próprio Sun Yat-sen. Esse exército cresceu rapidamente para cerca de dez mil homens, conquistando as vilas e aldeias que se interpunham no percurso em direcção à capital provincial. Quando se encontravam porém a pouca distância das muralhas de Cantão receberam ordens de Sun Yat-sen para alterarem os planos e marcharem para norte com o objectivo de capturar Amoy. A razão para tal alteração prendia-se com o facto de o Japão ter prometido assegurar apoio militar aos revoltosos se estes dirigissem os seus esforços contra a capital fuquinense onde os japoneses se pretendiam instalar também a partir das suas bases em Taiwan. As forças revoltosas foram então reagrupadas marchando com destino ao novo objectivo a 17 de Outubro. Logo no dia 20 porém confrontavam-se com um batalhão do exército imperial comandado pelo capitão Wu Hsiang-ta que lhes infligia a primeira e fatal derrota. Três dias depois Sun Yat-sen que se encontrava em Taiwan informava Cheng Shi-liang de que afinal não poderia contar com qualquer auxílio japonês. Ciente então da inutilidade dos seus esforços Cheng decidiu finalmente desmobilizar as tropas e pôr termo à insurreição que durara duas semanas e meia. Desta vez os acontecimento de Guangdong reflectiram-se no entanto com mais intensidade em Macau onde chegavam várias famílias de refugiados. A população civil chegou mesmo a ser armada enquanto  a guarnição militar era reforçada por destacamentos vindos da metrópole. A defesa marítima intensificava-se também com a chegada do Cruzador Adamastor.

Cruzador Adamastor.

O clima de tensão explodiu em Julho de 1900 com um incidente nas Portas do Cerco que provocou viva troca de tiros entre as guarnições portuguesa e chinesa através  da fronteira durante dois dias consecutivo. Apesar dos confrontos não se registaram movimentações de tropas de qualquer dos lados e a vida continuou por isso a decorrer com alguma normalidade na cidade que rapidamente voltaria ao sossego absoluto. O regresso da paz, permitiu ao governador Horta e Costa, que havia chegado no Cruzador da Armada Portuguesa reassumir o posto que tinha ocupado já anteriormente (1894/1896) e dedicar-se às tarefas administrativas internas mais urgentes: urbanização nova da cidade, saneamento básico e erradicação das epidemias cíclicas que afectavam o pequeno território. A insurreição do Verão de 1900 teve no entanto importantes repercussões. Nos anos seguintes, o governo de Guangdong enveredaria pelo caminho das reformas seguindo as orientações de Pequim o que provocou uma cismo inelutável entre os reformistas de Kang Iu-vai que se passavam declaradamente para o campo da dinastia Ching (a qual na prática abraçava as suas propostas reformistas) e as correntes anti- manchu entre as quais se contavam os correligionários de Sun Yat-sen, então ainda um nacionalista indeciso e os republicanos. Em Macau, os reformistas mantiveram ainda por algum tempo uma certa influência que no entanto se foi desvanecendo. O seu declínio final foi assinalado com a publicação do último número do “Reformador da China” de Leong Kai Chiu, no Outono de 1901. Apesar da perda de importância dos reformadores inclusivamente em Macau o panorama revolucionário na colónia portuguesa não esmoreceu. Bem pelo contrário acentuou-se com a crescente influencia que as correntes radicais ligadas cada vez mais ao sector do trabalho manifestavam. Sun Yat-sen continuava longe de Macau, mas os seus homens organizavam-se através das associações secretas que dominavam a cidade flutuante, das associações comerciais que ganhavam peso, dos grémios de trabalhadores e dos clubes que se registavam legalmente, cada vez em maior número. A influência das novas correntes revolucionárias da China foi particularmente sentida em finais de 1905 por ocasião do boicote dos portuários contra os Estados Unidos da América. à semelhança de Hong Kong os comícios e manifestações de protesto anti-americanos foram proibidos em Macau. Em alternativa os grémios e associações locais levaram a efeito manifestações nas vilas de Wan Chai e Zhouhai, bem à vista do Território. É nesta altura que Sun Yat-sen reconhecendo a deserção dos reformistas decide aliar-se aos estudantes radicais que pontificavam nas cidades do norte da China, nomeadamente em Xangai fundando a “Liga Unida” (Tongmenghui) que congregava as diversas correntes revolucionárias não reformistas. A Tongmenghui era um movimento genuinamente republicano que teria a sua sede no número 41 da Avenida da Praia Grande, em Macau, na  residência de Lao Si-fock, um conhecido revolucionário, que durante os anos seguintes encheria de dores de cabeça a Repartição dos Assuntos Sínicos.

A Liga Unida de Macau que se encontrava sob a directo do Departamento do Sul da sua congénere de Hong Kong era inicialmente liderada por Xie Yingbo, possuindo uma filial activa no número 21 da rua do Volong que funcionava sob a capa de um Centro de Estudos oficialmente registado na conservatória do governo.

João Guedes

Nota: – Publicado originalmente na Revista da Cultura (ICM)

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