O “1, 2, 3” em Macau. Um episódio na primeira pessoa.

Um polícia nos pormenores da história

O subchefe, João Vieira da Silva, mostra (vinte seis anos depois) visivelmente patentes ainda, as profundas cicatrizes na perna direita contraídas durante o dia mais dramático que passou na sua vida. João Silva, actualmente a poucos meses da reforma, recorda claramente, ” como se fosse hoje”, os acontecimentos vertiginosos que lhe provocaram aquela cicatriz irreparável no fim do ano de 1966. Uma sequela que não entraria na sua folha de serviços, nem sequer lhe daria direito a alguns dias de baixa, por culpa (acusa) de um chefe que se esqueceu de fazer o relatório a tempo. Depois bom, depois já era tarde. João Vieira da Silva, veio para Macau em 1962, enquadrado num esquadrão de cavalaria. No mesmo barco vinha com ele alguém famoso: o capitão Ramalho Eanes que seria muitos anos mais tarde presidente da República. João Silva, no entanto nunca entraria na história. Esse facto, não o inibiu porém de conhecer por dentro alguns episódios dos tempos mais difíceis porque Macau passou nas últimas décadas. Após cerca de três anos e meio de serviço militar no Quartel de S. Francisco, passaria à disponibilidade para se alistar quase de imediato na PSP. A esquadra número 2, (ao Canídromo), quase no termo Norte da avenida Almirante Lacerda, foi-lhe destinada como posto.

Entretanto, os ânimos, em Macau, aqueciam e cerca de seis meses depois a vida rotineira do novo guarda do município iria conhecer momentos de angústia.

Cerca das duas horas da tarde do dia 3 de Dezembro de 1966, João Vieira foi destacado com um pelotão de 30 homens da sua esquadra para reforçar o policiamento do Largo do Leal Senado, no momento em que milhares de manifestantes se encontravam nas ruas e a violência campeava já em Macau.

” Saímos numa camioneta antiga de carga aberta com destino ao local armados apenas de bastões e escudos em verga. os escudos de vinil eram propriedade exclusiva da polícia de intervenção (lembra João Vieira).” Chegados ao local, percebemos que havia uma total descoordenação de esforços. Do lado oposto ao Largo do Leal Senado um pelotão da polícia carregava sobre a turba obrigando-a a confluir para a praça do Município e, consequentemente, directamente contra nós. O motorista parou o camião e logo ficamos cercados por uma enorme multidão que tentou voltar o veículo. O ataque fez com que o abandonássemos sem ordem, procurando apenas escaparmo-nos”. Recorde-se que o pelotão de João Silva era formado quase integralmente por elementos da banda da PSP que nunca antes tinham feito patrulhas sequer. Os restantes elementos pertenciam às oficinas e à secretaria da esquadra

De imediato o subchefe e um dos guardas foram submersos e violentamente agredidos, escapando com vida por um triz. Cerca de uma dúzia de guardas, entre os quais João Silva conseguiram todavia romper por entre a multidão atingindo o edifício do Senado, sob uma saraivada de murros, pontapés e projécteis de todo o género que cruzavam os ares.” Os escudos eram em verga e estavam ruídos pela formiga branca, por isso cada tijolo que nos atingia destruía estas protecções que se esboroavam, para além disso não levávamos armas de fogo”, recorda. Quanto aos bastões não se revelavam de qualquer utilidade nas circunstâncias. No interior do Leal Senado foi uma retirada organizada. Os amotinados atacavam o grupo de polícias que retirava de sala em sala, tão ordenadamente quanto podiam. João Silva e os companheiros respondiam aos tijolos da multidão atirando contra ela, máquinas de escrever, cadeiras e pisa-papéis, enfim, tudo quanto iam encontrando à mão.

Subitamente, o nosso homem viu-se separado dos companheiros acabando por subir umas escadas cujo destino desconhecia e que o levaram ao terraço. Um beco sem saída? Os perseguidores assomavam também segundos depois à boca do local. ” Nessa altura eu era novo e estava em perfeita forma física, tinha saído da tropa pouco tempo antes, por isso não me assustava um salto de mais de 10 metros para as traseiras do Leal Senado… Saltei! O meu azar foi que em baixo o enorme portão de ferro se encontrava semi-aberto. Não o pude evitar no salto. Senti de repente a minha perna quebrar-se e enrolei-me no chão. Senti uma dor, mas mesmo assim, levantei-me rapidamente e corri a pé-coxinho, subindo pela Calçada do Tronco Velho” (íngreme via que ascende a quase 45 graus até ao Convento de Santo Agostinho). Mesmo assim, só numa perna fui mais rápido do que eles com duas. Cheguei ao largo de Santo Agostinho mantendo uma certa distância, mas subitamente perdi as forças e a consciência. Caí nas pedras da calçada desfalecido. Acordei algum tempo depois já ao abrigo da esquadra policial da Calçada do Gambôa que ficava junto ao Largo. Quem me levou foi o porteiro da escola da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses que ficava à esquina. Reparei então que tinha uma fractura exposta na perna direita. A situação nas ruas era de tal maneira má, que só às dez horas da noite desse dia, me conseguiram transferir para o hospital e, mesmo assim, no interior de um carro blindado”.

No dia seguinte, pela manhã, já de perna engessada João Silva pediu ao médico que lhe desse alta a fim de regressar à esquadra. O voluntarismo do guarda ferido, ou a necessidade de libertar uma cama, tão necessária perante a quantidade de vítimas que continuavam a acorrer ao hospital do governo, levaram o clínico a aceder ao pedido. Poucas horas depois João Silva encontrava-se já no telhado da sua esquadra, com o dedo no gatilho de uma metralhadora pesada “Bren”. É que se suspeitava que a esquadra fosse um dos próximos alvos dos amotinados. Junto a ele encontravam-se alguns elementos do corpo de voluntários de Macau, também eles de armas aperradas, prontos para o que desse e viesse. Os manifestantes, transportando os mortos do dia anterior, de punhos erguidos e gritando palavras de ordem passaram de facto em filas compactas em frente à esquadra número 2, sob as miras das metralhadoras, mas para alívio de todos não se registou qualquer movimento hostil. O pior do “Um, Dois, Três” tinha passado definitivamente para o guarda João Vieira da Silva.

Nota: – Artigo originalmente publicado na Revista Macau, Séria II, 1993

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