O Império Imóvel

Allan Peyrefitte é uma das figuras mais marcantes, das letras francesas do século XX, mas não só.

Allan Peyrefite foi também um político de renome.

Morreu vai fazer no próximo dia 27 dez anos em Paris e está sepultado no Panteão Nacional junto de Napoleão.

Gaulista, terá sido ele próprio quem, moldou para a posteridade a figura do general De Gaule, como herói da resistência na Segunda Guerra Mundial e inspirador de uma França que fazia todos os esforços para recobrar da humilhação e da destruição causada pelo conflito e voltar a afirmar-se numa Europa em farrapos.

Para além da sua associação com De Gaule, Allan Peyrefite, esteve também muito próximo dos dois presidentes que lhe sucederam, George Pompidou e Valerie Gicard Destaing.

Membro da Academia Francesa, teve um percurso de vida mais político do que literário, embora ele próprio dissesse que não queria ser político mas apenas escritor.

Foi secretário de estado e ministro em diversos governos e em diversas pastas, mas a sua obra literária acabaria por sobrepor-se ao que eventualmente tenha feito nos diversos governos em que participou.

Falo-lhe de Peyrefitte, porque, tenho aqui, uma das suas mais importantes obras.

Chama-se O Império Imóvel e considero ser de leitura obrigatória, para quem vive em Macau.

O Império Imóvel conta a história da incomunicabilidade e da intolerância entre dois povos (ingleses e chineses) de culturas totalmente distintas e narra a viagem de Lorde Macartney à China, com o objectivo de estabelecer um canal de comércio entre os dois países.

Mas o Império do Meio, nunca tinha aberto as suas portas a outra nação, excepto em certa medida aos portugueses através de Macau, e recusou liminarmente as propostas inglesas.

Um acidente, aparentemente sem importância, selou o fracasso da embaixada ao Império de Qianlong: é que Mackartney negou-se a executar o kowtow , ou seja a levar nove vezes a cabeça ao chão em outras tantas prostrações, diante do imperador, como exigia o protocolo chinês.

O orgulho britânico não o permitia.

Para escrever este livro Peyrefite, visitou a China, percorrendo os mesmos passos que a embaixada de Makartney e acabaria, por escrever outros livros sobre o país de Mão Tsé Tung, veiculando uma imagem do país e do maoísmo, que seria duramente criticada pela intelectualidade de esquerda francesa, que o acusou de transformar a realidade da R.P. C., num romantismo anacrónico.

O próprio Bernard Henri Levy, que escreveu extensamente também sobre a China o criticou desta forma, embora, Levy nas suas obras transmita a mesma imagem romântica de uma China que de facto não era assim e que criticava em Peyrefite.

Neste ponto vale a pena ler a crítica que, Jean Remy Pierre, do jornal Le Monde fazia ao Império Imóvel de Peyrefite, quando este foi publicado em 1989, com o título original francês, L Impire Imobile, ou Le Choc dês Mondes.

A espantosa diversidade de informações, as vozes europeias e chinesas que se cruzam e respondem umas às outras fazem do livro um documento excepcional e, ao mesmo tempo, um discurso premonitório. Mas trata-se, também, de um romance de aventuras admiravelmente bem amarrado. A linguagem é de uma fluidez surpreendente, jogando com o espaço e o tempo (…) Uma história que varre os mil e um episódios que fazem o dia-a-dia dos nossos cronistas. O desafio é que o livro é feito de episódios, mas Peyrefitte eleva o episódio ao nível de história universal (…) Uma suma fabulosa, um livro-chave, uma proeza.

O Império Imóvel, ou o Choque dos Mundos, uma edição da Gradiva e do Instituto Cultural de Macau, publicado em 1995, é de facto um livro em minha opinião indispensável.

Mesmo que no final nos fique a sensação de que a China e a Inglaterra de que se fala, estão longe de ser o que eram na época de Makartney e Qianglong e mesmo que achemos que de facto a China de Peyrefite é bem capaz de ser um universo muito mais imaginado do que real, embora o Império Imóvel não seja uma obra de ficção.

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