Buried Treasures of Chinese Turkestan

Berlim não é naturalmente apenas o festival de cinema que a semana passada atraiu todas as atenções para a capital alemã.

De facto, em Berlim podem encontrar-se algumas das mais belas maravilhas da arte, da arquitectura e algumas bem surpreendentes e quase desconhecidas do mundo em geral.

Entre várias há as que constam das galerias da Ásia Central do principal museu da cidade.

Entre elas contam-se o que resta dos grandes painéis budistas encontrados em Donhuang no grande deserto do Gobi por onde passava mítica rota da seda, via que ligava a China à Roma imperial.

Para além dos painéis é possível ver também as sedas e jades que os mercadores transportavam no dorso dos camelos nas caravanas entre a Europa e a China através das areias do deserto mais árido do mundo, o Gobi, também chamado Taklamakan, palavra que em urdu significa local onde se entra mas não se sai.

Hoje o local de onde essas relíquias foram retiradas, é de relativamente fácil acesso.

Fica não longe das cidades de Urumchi e Turpan, a pouco mais de duas horas de voo de Macau e constituem mesmo as principais atracões turísticas da região.

Todavia em finais do século XIX, a situação era bem diferente.

Não havia aviões, nem estradas e para lá chegar era preciso enfrentar os rigores e inclemências do clima.

Temperaturas extremas, tempestades de areia que num momento tudo soterravam e novas tempestades que desfaziam as anteriores pondo subitamente a descoberto as ruínas que restavam da rota da seda, mas só por pouco tempo, porque logo a seguir nova tempestade tudo de novo cobria e o que restava eram mares de dunas onde encontrar caminhos é impossível.

Aliás os guias turísticos da região avisam logo para o perigo que é alguém aventurar-se sozinho nessas imensidões sem norte.

Todas essas antigas cidades permaneceram encerradas em mistério durante séculos.

Isto até ter tido início a verdadeira fúria arqueológica europeia que começou com as primeiras expedições promovidas por Napoleão Bonaparte na grande expedição militar ao Egipto cuja única vitória que colheu foi a descoberta da pedra da Roseta, que permitiu decifrar os hieróglifos e iniciar esse novo ramo da ciência que se chama egiptologia.

A Ásia central ainda que em menor escala não escapou à atenção da arqueologia europeia sedenta de descobertas e o pioneiro foi o aventureiro e explorador Sven Edin, de origem sueca mas que na verdade trabalhava para o governo britânico, e que foi o primeiro a ter notícia dos tesouros enterrados nas areias ardentes do turquestão chinês.

Outros se lhe seguiriam, mas o que mais tempo trabalhou e mais tesouros desenterrou foi sem dúvida, Albert Von Le Coq.

A história das suas aventuras, conta-as ele próprio, na primeira pessoa, aqui neste livro com um sugestivo título: – “Buried Treasures of the Chinese Turkestan”.

“An Account of the activities and adventures of the second and third German Turfan expeditions”.

Ou seja um relato das segunda e terceira expedições alemãs a Turpan.

Este livro foi publicado pela primeira vez em inglês, em 1928 e trata-se, como disse, da narração das aventuras e desventuras que envolveram Von Le Coq durante as escavações que levou a cabo na rota da seda.

Mas conta principalmente como conseguiu, depois de muitas andanças, encontrar o maior e mais controversos tesouro de toda a via da seda.

A grande biblioteca manuscrita de Dunhuang.

Von Le coq, não seria à partida o mais provável candidato a arqueólogo.

Muito menos destinado a fazer qualquer descoberta sensacional.

De facto, Le Coq era um alemão filho de um negociante Huguenote de vinhos, de Darmstadt, que viveu e estudou nos Estados Unidos e em Inglaterra durante alguns anos antes de regressar à Alemanha para ficar à frente dos negócios do pai.

No entanto o comércio vinícola não era vida para ele.

Por isso deixou tudo e dedicou-se durante os 30 anos seguintes da sua vida a aprender línguas orientais.

Foi isso que o tornou notado e que o fez integrar a segunda expedição financiada pelo grande industrial de armamento Frederik Krup, ao turquestão chinês, juntamente com Albert Grunvald, que tinha liderado a primeira.

Estas duas últimas expedições decorreram entre contratempos de vária ordem, nomeadamente a eclosão da “Primeira Grande Guerra Mundial” que fez esgotar os financiamentos e interromper os trabalhos várias vezes.

A instabilidade mundial terá pesado na decisão de Von Le Koq de retirar os tesouros, nomeadamente as grandes pinturas murais budistas, as primeira que retratam Buda, ainda de uma forma helenística, os manuscritos e os restantes tesouros encontrados, empacota-los e levá-los para a Alemanha, a fim de os preservar  melhor.

Isto tudo numa expedição extremamente dispendiosa para o governo alemão e contra a vontade de

Albert Grunvald que defendia que os tesouros deveriam ser estudados e ficar onde tinham sido encontrados.

Afinal Grunvald Tinha razão, porque no decorrer da “Segunda Guerra Mundial” o Museu Nacional de Berlim foi alvo de diversos bombardeamentos que o reduziram a cinzas.

Claro que os painéis budistas, não escaparam. Dos tesouros de Dung Huang salvaram-se apenas as peças de menores dimensões e os manuscritos que tinham sido postos a salvo em grutas nos arredores de Berlim.

A razão de Grunvald ficava vingada, embora o arqueólogo tenha morrido antes da eclosão do segundo conflito mundial.

Quanto a Von Le coq, os tesouros de pouco lhe valeram, acabaria por morrer pobre e ostracizado pela comunidade científica alemã.

Felizmente que Von Le Coq, e outros exploradores, como Paul Peliot, ou Aurel Stein que também andaram pelo turquestão chinês não conseguiu retirar tudo quanto havia em Dunhuang.

Longe disso mais de 60 por cento das suas preciosidades ali permanecem e podem ser vistas nas suas grutas características alcandoradas nas falésias.

Há excursões para lá.

Por seu turno o governo chinês tem feito nas últimas décadas um esforço notável de preservação e recuperação desses locais.

Aliás a China já pediu à Alemanha a devolução do que Von Le Coq, levou, tal como fez a Grécia, junto de Inglaterra por causa dos frisos do Partenon.

Até agora a resposta tem sido negativa.

Mas no caso dos tesouros de Dunuhang a situação é mais complicada, já que parte do espólio salvo da guerra foi posteriormente empacotado e levado para a Rússia pelo exército de ocupação soviético.

Os Tesouros Enterrados do Turquestão chinês, uma obra que no fundo não deixa de ser um livro de aventuras bem ao gosto romântico de uma época sem regresso possível.

Von Le Cok, uma figura que revela também até que ponto o positivismo científico europeu em vez de se nortear pelos princípios da razão e da justiça levava aos extremismos mais irracionais e xenófobos.

Vale a pena ler.

Esta é uma edição da Oxford University Press, de 1985, que se não estiver já disponível nas livrarias encontra com certeza on line em http://www.amazon.com.

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