A perigosa neutralidade na Guerra do Pacífico (II) 18-05-10

O final da “Segunda Guerra” assinalou não só fim do conflito mais mortífero que a humanidade conheceu, mas também a entrada numa era inteiramente nova no xadrez geopolítico e estratégico mundial. As descolonizações. Um sinal simbólico de partida para essa recomposição que se alastraria pelo mundo seria dado pelas forças americanas no Extremo Oriente. Na contra ofensiva que teve lugar para desalojar os japoneses das regiões ocupadas as forças dos EUA, juntamente com o exército chinês efectuaram uma lenta progressão através dos principais pontos estratégicos da China, mas ignoraram completamente Hong Kong, que permaneceu em mãos nipónicas durante algum tempo mais do que outras cidades do país. A principal razão para isso prendia-se com o facto de o governo do Kwomintang considerar que Hong Kong fazia parte integrante da China, não existindo razões para que a Inglaterra reassumisse a soberania do território. Por seu turno aos americanos não interessava de modo algum dar qualquer sinal de parcialidade que pudesse ser considerado hostil pelos nacionalistas. Esta situação levou a que o alto comando sedeado na Índia, tivesse de pedir autorização para destacar um certo número de navios britânicos da esquadra do Pacífico sob o comando do almirante Sir Cecil Harcourt, para efectuar uma operação autónoma destinada a reconquistar Hong Kong. Um situação de envolveu negociações árduas e que essencialmente consumiu tempo precioso do ponto de vista de Londres. Nesse contexto, enquanto a esquadra britânica não chegava impunha-se o restabelecimento urgente do governo colonial, que tinha sido literalmente encarcerado nos campos de concentração levantados pelos japoneses no Natal de 1941. Para Londres essa acção era crucial de modo a evitar que na eventualidade de um vazio de poder o governo do Kwomintang levantasse a questão da soberania de Hong Kong, na esfera político-diplomática. Registava-se assim uma situação de corrida contra o tempo. De um lado a esquadra britânica a rumar ao Porto de Vitória e do outro as tropas do Kwomintang a penetrarem, já nos novos Territórios acercando-se perigosamente de Kowloon. Assim, Londres através do alto comando aliado na Índia, chefiado por Lord Mountbatten enviou ordens expressas para que o antigo secretário colonial Francklin Gimson, que estava preso no campo de concentração de Stanley, assumisse imediatamente após a sua libertação o cargo de governador em exercício e reorganizasse o governo até à chegada da esquadra britânica momento a partir do qual seria estabelecido um governo militar de excepção que vigoraria até à restauração da normalidade britânica. O problema era no entanto fazer chegar as ordens ao interior do campo. A difícil e perigosa missão seria cometida ao MI9 do tenente-coronel Lindsay Ride e à sua rede de espiões do “BAAG” (British Army Aid Group), os únicos que mantinham canais de comunicação com os campos de internamento e com a resistência no interior de Hong Kong. As ordens de Londres foram recebidas por telégrafo por Y. C. Lyang, que de imediato as transmitiu ao cônsul britânico John Reeves. A missão de entregar as ordens em mão a Gimson recaiu sobre o médico Eddie Gosano, que para o efeito recebeu o nome de código de “Phoenix”. Juntamente com Gosano seguiria Roger Lobo.

Roger Lobo seguiu com o agente "Phoenix" na missão secreta a Hong Kong

 Para além de entregar as instruções de Londres ao antigo secretário colonial, os dois tinham por missão contactar várias figuras de Hong Kong que deveriam colaborar no restabelecimento da administração britânica de Hong Kong. Inicialmente “Phoenix”, Roger Lobo e o próprio Lindsay Ride opuseram-se à missão tendo em conta a enorme dificuldade que representava a travessia do Rio das Pérolas enxameado de navios patrulha japoneses, milícias navais pró nipónicas e bandos de piratas sem quaisquer lealdades assumidas que apenas aproveitavam a caótica situação para pilhar o que podiam. Uma travessia assim poderia levar semanas a efectuar, afirmava Ride e a vida dos agentes corria sérios riscos. O assunto resolveu-se quando Y. C. Lyang, que controlava a rede clandestina de navios de pesca que garantiam o fluxo de mantimentos entre o Vietname e Macau iludindo o bloqueio japonês, garantiu que a viagem seria feita rapidamente e com toda a segurança, designando para o efeito uma escolta constituída por quatro guerrilheiros armados e largamente experimentados nas andanças dos mares do Sul da China. Vencidas as hesitações o pequeno grupo de homens disfarçados de pescadores partiu num velho junco a motor com destino a Hong Kong, conseguindo passar incólume, como Y. C. Lyang tinha garantido, através da perigosa selva em que se tinha transformado o Delta nos últimos anos. A velha embarcação ainda avariou várias vezes durante o percurso, o que transformou a viagem que normalmente não duraria mais do que 12 horas numa angustiante eternidade para Gosano e Lobo. Mas finalmente os dois puderam aportar sãos e salvos no cais de Kennedy Town. Chegados a Hong Kong, Gosano contactou de imediato o seu colega Selwin Clarke, fazendo-lhe saber que ficava a partir daquele momento responsável pelos serviços de saúde e particularmente pelo processo de distribuição de alimentos à população e recuperação dos inúmeros prisioneiros de guerra afectados pela fome e em precárias condições de saúde. Para o efeito aproveitaria o sistema em vigor implementado pelos japonesas garantindo o seu continuado funcionamento. Outra personalidade contacta foi Sir Robert Kotwall, que tinha sido o último e mais categorizado deputado do Conselho Legislativo de Hong Kong, antes da ocupação. As razões para este contacto com Kotwall, notório colaboracionista, permanecem ainda hoje um mistério. Isto tendo em conta que até Lindsay Ride se tinha oposto a tê-lo sequer em consideração. A verdade é que o próprio Kotwall, que sabia que a queda dos japoneses estava eminente, se eximiu, declarando-se indisponível por tempo indeterminado para o exercício de toda e qualquer função oficial alegando motivos de saúde. Kotwall não recebeu Gosano, tendo-lhe sido indicado que contactasse antes Man Kam Lo (genro de Sir Robert Ho Tung), que era tacitamente aceite como o líder da comunidade chinesa de Hong Kong. Finalmente “Phoenix” rumou a Stanley, onde entrou com facilidade entregando as ordens que trazia num envelope selado, cujo conteúdo ignorava, ao secretário Francklin Gimson. Este não perdeu tempo e munido da carta patente que o nomeava governador empossou o presidente do Supremo Tribunal, e o “postmaster general” (director dos correios), Athol MacGregor e Gwynn-Jones, que consigo se encontravam internado no mesmo campo. Com essas três figuras fulcrais se iniciou a recomposição da administração e a restauração da soberania britânica de Hong Kong. De salientar em tudo isto o facto de nenhum dos elementos da “Coluna do Rio de Leste”, que tão bravamente se tinham batido contra a presença japonesa em Hong Kong ter sido tido ou achado na operação. É que logo à chegada dos navios da esquadra do Pacífico, o almirante Cecil Harcourt, fazia saber que as únicas forças combatentes reconhecidas seriam apenas e só as do Kwomintang. Isto, apesar da sua presença se ter feito sentir apenas na fase final do conflito nas imediações de Hong Kong e seguramente não com o objectivo de facilitar qualquer regresso dos ingleses.

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