A Espada de Dois Gumes

O livro que deixo como sugestão para hoje surgiu de um comentário de um dos poucos nomes do panorama editorial português que ficou na história, Francisco Lyon de Castro.

Segundo Lyon de Castro, faltava ainda uma obra de teor histórico, que explicasse as razões da longa permanência de Salazar no poder.

Quem aceitou o desafio foi David Martelo, um oficial do exército que meteu ombros à tarefa e publicou, “A Espada de Dois Gumes”.

Neste ensaio, o autor pretende historiar o papel das forças armadas entre o golpe militar de 28 de Maio de 1926 e a revolução de 25 de Abril de 1974.

Ao longo das quase quatrocentas páginas deste livro, David Martelo, parece-me ter conseguido responder ao desafio de Lyon de Castro, ou seja explicar uma das principais razões para a manutenção do ditador Salazar durante mais de 40 anos no poder, contra ventos e marés, reinando durante todo esse período quase sem oposição, ou com muito diminuta oposição.

Claro que o livro visando essencialmente o pilar militar da manutenção do regime, se fica muito por esse aspecto, deixando porventura de fora outras razões de ordem política, que nada ou pouco teriam a ver com o domínio castrense.

No entanto pode dizer-se que se foram os militares, principalmente de baixa patente que fizeram o golpe de 1926, pode dizer-se também que foram eles que forjaram as bases do Estado Novo, num simbiose inextrincável com o então jovem professor de Coimbra, Oliveira Salazar.

Feito o golpe de 28 de Maio, os militares ficaram nas mãos com um poder que não sabiam manejar e sem generais que o soubessem fazer também.

Assim, à falta de general competente e tendo em conta as disputas internas no meio militar, a saída foi nomear virtualmente um general civil, capaz de transformar o exército e sanar disputas.

O resultado foi a ascensão de Salazar que ficaria nomeado árbitro ad eterno, pois nos meios militares, nunca surgiria general suficientemente competente, ou carismático para o substituir no poder.

Nem mesmo Humberto Delgado.

Mais tarde Spínola não seria excepção a essa regra já que abandonaria a chefia do estado por não saber o que fazer à revolução de 1974.

Este estudo publicado, pela Europa América, em 1999, é de um autor, cujos trabalhos me permito destacar, como muito sérios e bem documentados, ainda que o seu nome passe mais despercebido do que seria de esperar e merece no panorama editorial português.

Para além da “Espada de dois gumes”, David Martelo publicou, também, na Europa América, o “Exército Português na Fronteira do Futuro”, e um outro livro que se chama “Cessar-fogo em África”.

Este “Cessar-fogo em África” quanto a mim é um dos mais lúcidos estudos sobre o papel das forças armadas na descolonização na sequência da revolução de 25 Abril.

Pena é que permaneça também numa semi-penumbra, apesar de ser considerado como “obra essencial que ficará, por certo nos anais da ensaística nacional, quer pelo seu valor documental e literário quer pelas características de exactidão”.

Bom. resta falar sobre o autor.

Chama-se David Martelo, é coronel do exército reformado.

Nasceu em Viseu em 1946, possui vários cursos nacionais e estrangeiros em matéria de defesa e teve um papel de algum relevo no 25 de Abril, principalmente no então chamado grupo dos Nove, onde pontificavam entre outros Melo Antunes e Vasco Lourenço.

Bastante desapaixonado na forma como escreve, David Martelo, não deixa no entanto de deixar bem vincadas as suas posições, nomeadamente quando refere momentos controversos da história.

A este propósito devo salientar a forma como analisa o papel de Santos Costa, o eterno senhor do Ministério da Guerra durante o longo consulado de salazarista.

Um retrato curioso deste personagem do Estado Novo que em vida chegou a ser um nome tão sonante quanto o do ditador e que depois a história relegou completamente para umas quantas notas de roda pé. Hoje é figura praticamente esquecida de todos, depois de ter sido o patrão indisputável do exército, comandando com a mera patente de capitão todos os generais da terra e do ar, do então império português, pondo e dispondo a seu bel prazer sempre com a aquiescência do velho ditador de S. Bento.

Resta ainda dizer que para além dos livros que mencionei, David Martelo, escreveu ainda um outro, “As Mágoas do Império”, também saído sob a chancela da editora Europa América, um livro que ainda não tive oportunidade de ler, mas que vou procurar encontrar depois de ter lido os outros dois, porque com certeza valerá a pena.

David Martelo.

Não esqueça este nome se quiser saber mais sobre a história contemporânea de Portugal, principalmente no domínio do papel das forças armadas na vida nacional.

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1 Comment

  1. Acho que com o seu comentário fez justiça a um homem que merece cada uma das suas palavras pois tem dedicado grande empenho e carinho a cada uma das suas obras.

    Alguém que o conhece muito de perto

    Yolanda


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