Stalin

O século XX foi um período que conheceu, particularmente na Europa em termos políticos uma lenta e penosa caminhada em direcção à democracia. Uma caminhada repleta de divisões, ódios e derramamento de sangue.

Mas o mais curioso deste lento progresso foi o facto de tanto, as divisões, como o sangue derramado não terem ocorrido apenas entre a democracia e os seus inimigos.

Não.

O problema é que o conceito de democracia na Europa cindiu-se e cristalizou-se em dois campos irreconciliáveis no que toca à interpretação do dito.

Enquanto o que viria a ser chamado mundo ocidental entendia que a liberdade era um conceito burguês que a revolução francesa de 1789 tinha definido e os parlamentos burgueses subsequentemente dado consistência, tendo como epítome a democracia americana, as correntes socialistas inspiradas no marxismo tinham uma visão bem diversa, entendendo que a verdadeira liberdade era o acesso livre ao trabalho, à educação, e à saúde para todos, na mais completa igualdade.

Esta liberdade seria a única que garantiria a realização última da felicidade humana.

Tendo isto em conta, para esta corrente de pensamento, os fins justificavam os meios e não havia que hesitar mesmo em fazer tábua rasa da liberdade de expressar o pensamento, de opinar e principalmente de discordar, sendo preciso.

Toda a gente teria, assim, direito a ser feliz, nem que fosse à força.

Claro que esta idiossincrasia teria resultados funestos, produzindo na prática um variado leque de ditaduras e ditadores um pouco por todos os países da Europa, desde Portugal à Rússia e foi na Rússia que se revelou ao mundo um dos maiores e mais brutais ditadores da história do século XX.

Stalin.

Sobre ele a bibliografia é imensa em todas as línguas universais e o número de biografias não é menor.

Mostro aqui uma delas.

Chama-se STALIN e é escrita por Edvard Radzinsky.

Esta edição é de 1996.

O que distingue esta biografia de outras é que as anteriores, tinham sido publicadas antes da queda da União Soviética e por isso careciam, de alguns elementos fundamentais sobre a personalidade desse georgiano que comandou os destinos da Rússia durante quase trinta anos.

É que na altura o que se sabia ou não sabia sobre Estalin, era segredo de estado e estava guardado a sete chaves, nos arquivos do Kremlin inacessíveis a quase todos, se exceptuarmos um reduzidíssimo número de altos dirigentes do partido, ou do mal afamado KGB.

Por isso a novidade deste livro está no facto de Edvard Radzinky ter tido acesso a toda essa documentação até então desconhecida, para além de ter falado com alguns contemporâneos que de algum modo privaram com o ditador e que na nova Rússia do pós queda do muro de Berlim já podiam falar um tanto ou quanto mais livremente.

Diga-se que Radzinsky, beneficiou em larga medida, da confusão que se instalou na Rússia na sequência da queda de Gorbachev e durante a ascensão de Yeltsin ao poder, período em que os próprios guardiães dos arquivos não ficaram imunes à nova política de mercado, vendendo os documentos que tinham a quem dava mais, a preços variados consoante a importância da personalidade, ou do segredo a desvendar e Estaline era um dos assuntos mais importantes e mais importantes eram ainda os segredos que protagonizara.

Num comentário a esta biografia, o historiador David Brandenberger, da universidade de Harvard, perito reputado na história da União Soviética com vasta obra publicada, diz que se trata essencialmente de uma compilação de factos, opiniões e má língua, em circulação, pelo menos na Rússia, há décadas.

Seja como for certo é que Radzinsky apoia esses rumores e a eventual má-língua em sólida documentação extraída dos tais arquivos secretos.

Claro que ao longo destas páginas não pode deixar também de se notar a pena de um autor declaradamente monárquico e visceralmente anti comunista.

No entanto não deixa de ser uma obra a todos os títulos merecedora de atenção.

Não por revelar pormenores da vida privada de Estaline, que se satisfazem os tais cultores da má língua, no mais pouco acrescentam, mas principalmente pela caracterização que faz das grandes figuras que gravitavam em torno do ditador e de que se foi livrando uma a uma até ficar apenas, ou quase só rodeados de personalidades cuja estatura física podia passar bem o metro e sessenta de Estaline, mas que ficava a milhas da sua moral revolucionária, no melhor e no pior.

Aliás acho que no que toca a ditadores, o segredo do poder está essencialmente em livrarem-se da concorrência.

Este livro responde também em certa medida a algumas interrogações sobre grandes momentos da história que causaram a maior perplexidade. Um exemplo foi a aliança contra natura entre Estaline e Hitler, na segunda Grande Guerra Mundial.

Já agora vale a pena dizer que o autor inseriu Stalin numa série editorial que começou em 1990, chamada Mistérios da História, na qual publicou, O Dossier Rasputin, O Mundo Perdido de Nicolau e Alexandra, Alexandre II e Vida e Morte de Nicolau II, entre outros, que circulam apenas na versão original em russo.   

Acredito que a oportunidade de mercado, terá sido factor decisivo que levou Radzinsky a escrever este livro, que a certos momentos resvala para temas de tablóide britânico, mas mesmo assim acho que vale a pena ler.

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