Prisoner of the State

Esta é a história contada na primeira pessoa de um homem fascinado com fórmulas económicas que aplicava e que como se por magia, transformavam a face do seu país criando riqueza e prosperidade onde antes havia apenas o encargo de não deixar enferrujar a “malga de ferro de arroz” que garantia a sobrevivência para todos.

Passa-se na China e o autor é o falecido ex-primeiro ministro e ex-secretário-geral do Partido Comunista, Zhao Zhiang.

A história é esta.

Chama-se: – Prisioneiro do estado.

Depois têm como subtítulo: – O jornal secreto do premier Zhao Ziyang.

Devo dizer que nas 306 páginas deste livro não se encontra nenhum grande segredo, de que já se não soubesse com mais ou menos pormenor alguma coisa.

Apesar do secretismo em que na China se envolvem os passos do Estado, muito do conteúdo do livro foi aparecendo mais ou menos a avulso em artigos de imprensa durante anos.

No entanto a importância desta obra reside precisamente no facto de ser o seu protagonista, não só a apor uma chancela de autenticidade nesses artigos avulso, mas a explicar circunstanciadamente políticas, motivações e alguns segredos de uma engrenagem muito mais complexa do que à primeira vista se poderia supor.

Fica-se a saber por exemplo, ainda que desde sempre se suspeitasse, que pelo menos durante mais de uma década quem detinha o poder não era o restrito politburo do Comité Central do P.C.C., mas um grupo ainda mais restrito constituído precisamente por quem dele já oficialmente não constava.

De Deng Xiaoping, o arquitecto das reformas, sempre se soube, mas durante muito tempo poucos sabiam de ciência certa o poder que Chen Yun, por exemplo, detinha por trás da cortina.

Alegadamente o livro terá resultado das memórias gravadas secretamente por Zhao Zyiang, em cassetes rotuladas como contendo histórias para crianças, no caso concreto destinadas à neta do desaparecido dirigente.

Não se pode saber se foi de facto assim, ou se a elaboração do livro decorreu de outro modo e o alegado secretismo com que teriam sido ditadas, terá sido apenas um ingrediente para valorizar comercialmente a edição.

Seja como for neste livro Zhao Zyang, expõe com detalhe as grandes medidas tomadas no domínio económico com vista a fazer sair a China do subdesenvolvimento.

E apenas uma coisa se pode constatar.

As medidas adoptadas resultaram em pleno.

O facto da China ser hoje a segunda maior economia do mundo comprova-o, mas o livro revela também que nenhuma dessas medidas poderia ter sido implementada, apenas e só por Zhao Zyang. Bem pelo contrário.

Elas só foram possíveis por que acima estava o peso político de Deng Xiaoping, o único com força para vencer as resistências que se opunham  à grande mudança e eram muitas.

Não seria portanto pela questão da economia que Zhao Zyiang sairia derrotado do palco da história.

Apesar de banido, as suas políticas económicas continuaram a vigorar, sem um passo atrás, tendo apenas vindo a conhecer pequenas correcções e muitos aprofundamentos.

Isto, porque Zhao Zyiang não estava enganado, em matéria de desenvolvimento económico como se nota claramente hoje.

A sua eliminação não se deve portanto à economia mas sim à política, onde Zhao não tinha nem de longe nem de perto a força o prestígio e principalmente a solidez de Deng.

Neste domínio pode dizer-se que Zhao se deixou fascinar pelo modo como a aplicação das fórmulas económicas que implementava produziam efeitos surpreendentes, subscrevendo algumas “heréticas” teses (do ponto de vista marxista leninista) que achava serem inerentes a um desenvolvimento económico moderno.

Ou seja, alguns dos elementos das democracias ocidentais, nomeadamente, o pluripartidarismo, a separação de poderes no seio de estado e mais alguns elementos liberais das sociedades burguesas.

Neste ponto entrou naturalmente em colisão com Deng, que analisando a recente viragem de regime na União Soviética, não antevia nada de frutuoso para o socialismo chinês no desvio social-democrata de Gorbachev em Moscovo.

Diga-se que Deng Xiaoping não se enganava como se viria a ver pouco depois com a queda de Gorbachev, a ascensão de Boris Yeltsin e os anos de confusão, fragmentação política e caos social que se seguiram na Rússia.

Do livro ressalta claro que Zhao Zyiang, não admitia, que da abertura política do regime pudesse decorrer qualquer malefício e nesta ilusão travou um braço de ferro, que parece-me a mim, que como homem inteligente que era sabia que não tinha probabilidades, ainda que mínimas, de vencer.

Daí a Tian An Men foi um passo e o seguinte foi a prisão domiciliária onde permaneceria até a morrer.

Apesar do desfecho da sua vida política, as forças vencedoras na batalha de Tian An Men, que declararam os estudantes radicais inimigos do povo, nunca consideraram Zhao Zyang como um traidor, nem o baniram

Bem pelo contrário.

Não só contra ele não foram desencadeadas as perseguições habituais em tais regimes, como manteve sempre até ao fim a condição de membro do Partido Comunista, condição que o próprio também nunca renegou.

Vale a pena ler este livro, quanto mais não seja para conferir convicções.

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