Os malfadados malefícios do tabaco 27-04-10

Tenho acompanhado (não sem alguma espécie de fastio) a longa telenovela que se desenrola em torno da lei de proibição do fumo de tabaco em locais públicos. Tem sido assim um pouco por todo o mundo. Creio que o primeiro episódio começou em 1585 com a introdução do tabaco em Inglaterra pelo pirata Francis Drake.

O segundo episódio ocorreu pouco depois quando o aventureiro Walter Raleigh, inventou o cachimbo e levou com o primeiro sinal de rejeição à novidade na forma de um balde de água que o criado lhe atirou ao vê-lo envolvido em volutas de fumo. O bom serviçal, coitado, pensou que o patrão tinha entrado em combustão espontânea.

Depois disso o fumo de tabaco continuou a fornecer amplos motivos para os episódios seguintes, caprichosos e rocambolescos.

O consumo da planta foi-se alastrando um pouco por todo o mundo, fumado, cheirado em pitadas de rapé, ou mastigado, mas o uso generalizado só ocorreu a seguir à Primeira Grande Guerra Mundial (1914-18), ou seja mais de três séculos depois da sua introdução na Europa.

A novidade trazida por Drake foi recebida como todas as novidades costumam ser, ou seja defendida por uns como erva medicinal, ou simples sinal de distinção social e combatida por outros como vício execrando e corruptor dos bons costumes.

Houve momentos na história em que o produto chegou mesmo a ser proibido por lei e os fumadores punidos a rigor. Dizem que um dos crimes que levou Sir Walter Raleigh a ficar sem cabeça, decapitado na Torre de Londres, terá sido a forma ostensiva como cachimbava sem rebuços nas barbas dos protestantes puritanos do parlamento.

O próprio Anton Tchekov, um dos maiores dramaturgos da história da literatura não descurou o tema e serviu-se dele para escrever “ Os Malefícios do Tabaco” uma das suas mais famosas peças de teatro.

Atribui-se ao Papa Urbano VII, um pontífice que ocupou cerca de 13 anos a cadeira de S. Pedro (tido como homem corajoso e de boa índole), a primeira proibição universal do uso do tabaco, banindo os fumadores das igrejas e castigando-os com a excomunhão. Um acto preventivo que não evitou que ele próprio morresse envenenado. Não pela nicotina claro, já que nesse tempo (século VI) ainda não se sabia o que a nicotina fosse, mas por outro qualquer veneno de que os “Borgia” eram exímios utilizadores. 

Tudo isto muito antes de se saber se o tabaco fazia mal, ou bem à saúde, já que os primeiros estudos científicos sobre o assunto surgiram apenas já na segunda metade do século XX (1960 para ser mais preciso). Foi a partir dessa data que se desvaneceram as suas propaladas virtudes medicinais e se passou a relacionar o fumo com várias doenças nomeadamente cardiovasculares. Mais tarde seria acrescentado o cancro do pulmão e outras mais patologias derivadas da nicotina e do alcatrão componentes químicos intrínsecos ao tabaco à lista dos malefícios.

Esses estudos produziram uma nova vaga anti tabagista que tem vindo a aumentar gradualmente até hoje. Felizmente, que ainda não produziu a execução de mais ninguém a não ser do citado aventureiro inglês do século XVI, nem levou o Vaticano a renovar a drástica lei canónica do Papa Urbano.

Parece no entanto que a campanha iniciada nos anos 60 do século passado está a atingir foros fundamentalistas elevando a condição dos fumadores à dos infiéis dos tempos das cruzadas, ou dos “niilistas” dos tempos de Tchekov.

A católica Irlanda, por exemplo, foi o primeiro país do mundo a aprovar uma lei nacional de proibição do fumo em 2004. O exemplo irlandês foi seguido pelo Butão, diminuto país dos Himalaias, que foi mais longe ainda e baniu totalmente o fumo de todo o território nacional proibindo pura e simplesmente a venda de cigarros, charutos e tabaco para cachimbo. Um contributo excelente, diga-se, para tornar ainda mais puros os já de si rarefeitos ares da cordilheira do Evereste.

Na livre América os graus de tolerância relativamente ao vício do tabaco variam de estado para estado havendo alguns que proíbem o fumo mesmo ao ar livre. Quem quiser fumar que o faça em casa, ou às escondidas da polícia se não quiser ser multado, ou mesmo preso como qualquer delinquente consumidor de estupefacientes.

Os episódios de Macau da tal novela sobre o tabagismo estão por agora a ser feitos em estúdio, ou seja nos debates da comissão especializada da Assembleia Legislativa designada para o efeito, que tarda em concluir a cena. Ao que parece tal se deve ao “script” da proposta legal em apreciação cujos argumentistas oscilam em excluir, ou incluir no banimento (principalmente) os casinos.

Parece-me no entanto, que neste caso o impasse legislativo está longe de se justificar, tendo em conta não só a histórica condenação da igreja,  e o movimento global no sentido de proibir, mas também os estudos científicos que informam claramente que o fumo não só prejudica a saúde do próprio como a de terceiros (“ou de outra”, como dizem em rodapé os anúncios locais às marcas de tabaco). Sendo assim não se descortina razão para incluir as locandas de “sopa de fitas” e excluir os salões dos casinos. Todos possuem empregados não fumadores que não têm outro remédio senão sujeitar-se às volutas dos sorvedores de esparguete, ou dos apostadores do “bacará” se querem ordenado ao fim do mês.

O bom senso recomendaria a existência de locais separados para fumadores com a respectiva instalação de máquinas exaustoras, espaços para não fumadores e pronto.

Isto porque algo mais atentaria contra a liberdade de cada um (direito universal incontestável).

Será bom recordar aos deputados e fundamentalistas em geral que não existe em Macau (nem em lado nenhum do Mundo) qualquer lei que considere crime o acto de fumar, ou equipare sob qualquer forma o comércio do tabaco a qualquer tipo de tráfico ilícito.

Sendo assim a demora só se justificará como desculpa da comissão para deixar de lado assuntos que porventura se afigurariam mais importantes e de necessidade de resolução mais urgente. De resto não se vislumbra outra razão para tão demoradas lucubrações legislativas.

Resta assim esperar que um dia destes saia fumo branco dos exaustores do edifício da Assembleia legislativa.

Até lá, porém, não será demais chamar a atenção para o facto de o voluntarismo, em muitas matérias desaconselhável, mais o ser ainda nos domínios legislativos. É que depois podem surgir incongruências surrealistas como é o facto de se puder fumar livre e calmamente um “charro” em qualquer café de Amesterdão sem se correr o risco de punição legal. Porquê? Apenas porque a lei holandesa não é contra o fumo da “marijuana”, ou dos escapes dos automóveis, ou das chaminés. É exclusivamente contra o fumo do tabaco.

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