A perigosa neutralidade de Macau na Guerra do Pacífico (I) 11-05-10

Durante a “Segunda Grande Guerra Mundial”, Macau viveu um dos períodos mais complicados da sua história. Colónia diminuta extravasava largamente as suas proporções geográficas em termos políticos tendo em conta que era o único território neutral do Extremo Oriente. Esse estatuto decorria, naturalmente, da posição de não beligerância declarada pelo governo de Lisboa face às potências em conflito. Todavia tudo não passava de um neutralidade perigosamente encapotada.

Ao contrário de Lisboa que, durante uma grande parte da hecatombe, pendeu para as forças do “Eixo”, Macau tomou desde logo uma atitude claramente favorável aos aliados. Essa situação tornava-se desde logo compreensível e explicável tendo em conta, não só a distância que a separava de Portugal funcionando assim num contexto géo-político muito diverso, mas principalmente, a influência britânica que se fazia sentir primordialmente através de laços familiares da comunidade macaense com as de Hong Kong, Xangai e Singapura (esta em menor grau, mas mesmo assim sensível), que eram colónias britânicas, ou, no caso de Xangai, onde a preponderância inglesa se fazia sentir mais do que outras.

Esse facto fez com que, depois da ocupação de Hong Kong pelos japoneses, no Natal de 1941, Macau se transformasse no mais importante centro de apoio e espionagem atrás das linhas inimigas (japonesas) dos aliados na China.

Para o efeito contribuiu decisivamente a imigração massiva para Macau, não só de macaenses, mas também dos cidadãos britânicos que residiam em Hong Kong e que conseguiram fugir antes de serem capturados e internados nos campos de concentração ali instalados pelos japoneses, onde muitos passariam os quatro longos e penosos anos que durou a ocupação e alguns neles acabariam por perecer.

Através de artifícios legais e diplomáticos, os fugitivos foram recebidos e instalados em Macau, pelo governador Gabriel Teixeira, permanecendo sob a protecção da bandeira portuguesa e à responsabilidade do cônsul inglês na cidade John Reeves. Na verdade este limitava-se a conceder uma protecção pura e simplesmente formal, já que não possuía meios para o efeito e se encontrava rigorosamente vigiado pela polícia política japonesa (Kempentai) que operava no território com a mesma, ou quase tanta liberdade quanto a polícia portuguesa. Discretamente o apoio aos refugiados era oferecido, de facto, pelo governo português, que auxiliava utilizando, para o efeito, diversas organizações não governamentais, nomeadamente a Igreja Católica.

Dessa forma, o governo evitava a hipótese de vir a ser acusado de quebra das condições de neutralidade por qualquer apoio directo que concedesse aos cidadãos ingleses, ou de outros inimigos do “Império do Sol Nascente” arriscando-se a sofrer a mesma sorte que Timor.

Tudo isso pese embora o facto de Tóquio saber muito bem que em Macau operava, não uma, mas várias redes hostis à ocupação. Essas redes não só se encarregavam de fornecer preciosas informações ao alto comando anglo-americano, sobre as movimentações militares terrestres e navais nipónicas, como se incumbiam também, de coordenar acções de sabotagem contra alvos designados em toda a região costeira do Sul da China, para além de furarem os bloqueios e garantirem o fornecimento de meios de subsistência às populações.

Essas redes, algumas das quais ficariam célebres apoiavam-se no mar nas diversas “tríades” que uniam os pescadores que enxameavam as rotas existentes entre a miríade de ilhas e ilhotas que pontuam as costas de Guangdong, para Sul através da ilha de Hainão, até ao Golfo de Tonquim.

Em terra apoiavam-se essencialmente na chamada “East River Column”(ERC). “Coluna do Rio de Leste” em português. Tratava-se de um forte grupo de guerrilheiros, baseados em diversos pontos do Delta das Pérolas, liderado e esmagadoramente constituído por elementos do Partido Comunista da China (PCC) bem integrados e apoiados pelas populações. A ERC, estava dividida em grupos de combate e possuía diversos aquartelamentos instalados em pontos inacessíveis das montanhas da região.

Duas das suas mais importantes bases de operações situavam-se nos Novos Territórios de Hong Kong e na ilha de Lantau, pontos fortes que operaram sem interrupção durante todo o conflito. A ERC, mantinha-se em contacto com a liderança central do PCC, através de potentes postos de rádio bem escondidos naqueles dois locais e que apesar das diversas investidas japonesas nunca foram neutralizados.

O seu núcleo de Macau, contribuiu desde o início com 50 homens armados. Este grupo nunca diminuiu em número e capacidade de combate e parece ter mesmo ganho maior dimensão à medida que o conflito foi avançando, embora não se conheçam dados claros sobre as suas forças.

Um terceiro posto de rádio secreto encontrava-se em Macau, tendo igualmente operado sem interrupções até ao final da guerra, a partir da Escola Salesiana, situada na Rua Central, onde se encontrava dissimulado e que a polícia japonesa nunca conseguiu detectar.

Este centro de comunicações porém não estava ligado à ERC, mas sim ao MI9, a rede de inteligência britânica que operava a partir de Chonqing, capital da China livre (1937-45), local onde se encontrava também a sede do governo nacionalista liderado pelo Kwomintang.

MI9 era a designação operacional do “British Army Aid Group” (BAAG) organização paramilitar das forças aliadas, que tinha sido criado na sequência da ocupação japonesa de Hong Kong.

O BAAG, foi formado, por Sir Lindsay Tasman Ride, professor de fisiologia da faculdade de medicina da Universidade de Hong Kong, que participou como voluntário na defesa daquela colónia britânica com o posto de tenente-coronel. Lindsay Ride viria a ser capturado pelos japoneses e internado no campo de concentração de Sham Shui Po, de onde conseguiu escapar com o auxílio dos guerrilheiros da ERC e atingir Chongqin. Ali sugeriu a criação da organização que viria a ser o MI9 de que assumiria o comando.

Sir Lindsay Ride (sentado ao centro) chefe do BAAG.

O MI9 destinava-se a auxiliar o esforço de guerra aliado e particularmente a restaurar a moral e o prestígio britânico duramente abalados após as quedas sucessivas de Hong Kong e Singapura às mãos dos japoneses.

A organização encarregava-se não só de recolher informações militares, mas também de organizar a fuga de prisioneiros de guerra, que depois de se restabelecerem e relatarem o que pudessem saber de interesse, eram reintegrados nas suas unidades de origem. Alguns eram-no no próprio MI9, onde eram treinados e posteriormente lançados em vários pontos da China para missões específicas.

De entre as fugas mais espectaculares organizadas por esta organização, conta-se, no que a Macau diz exclusivamente respeito, a do chefe da Repartição de Administração Civil, Menezes Alves, que discordava da política que o governador Gabriel Teixeira prosseguia em Macau e temia ser eliminado, embora não se saiba bem se pelo próprio governador, se pelos japoneses. Fosse como fosse, o MI9 conseguiu retirar secretamente Menezes Alves, de Macau e entrega-lo a salvo ao comando aliado em Chongqin, local de onde seguiu depois para Lisboa através de Goa.

Menezes Alves pretendia denunciar pessoalmente a actuação do Governador a Salazar. Todavia a denuncia, se ocorreu não produziu efeitos, já que Gabriel Teixeira, seria após o seu regresso a Lisboa agraciado pela forma como conduziu a política portuguesa em Macau durante a guerra, enquanto que Menezes Alves se perderia no anonimato da burocracia do Ministério do Ultramar sem mais dele se ouvir falar.

Em Macau, o MI9 era liderado por Y. C. Lyang, funcionário de Pedro Lobo, o todo poderoso chefe da Repartição dos Serviços Económicos. Y. C. Lyang, viria a tornar-se mais tarde em empresário de sucesso tendo sido o introdutor da Coca-Cola no Território.

Para além, de Y. C. Liang, vários portugueses faziam parte da rede de agentes secretos da organização. Entre muitos contava-se Jack Braga, destacado intelectual e autor de numerosos ensaios sobre a expansão marítima portuguesa dos séculos XVI e XVII no Extremo Oriente. Outro espião português do MI9, era o médico Eddie Gosano, figura distinta de humanista, que sob o nome de código de “Phoenix” haveria de ter um papel fulcral no restabelecimento do domínio britânico em Hong Kong, na sequência da rendição do Japão em 2 de Setembro de 1945.

A operação do agente Phoenix é um episódio dos muitos que ainda estão por contar sobre os cinco anos de perigosa neutralidade que Macau viveu durante os anos de fogo da Guerra do Pacífico.

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