Consciência de si 23-03-10

Junto-me ao coro de expectativa positiva que por aí grassa e também me congratulo com a designação de Ung Vai Meng para a liderança do Instituto Cultural(IC). Uma escolha que parece acertada tendo em conta as provas dadas pelo escolhido. No entanto na actual conjuntura, Ung Vai Meng não terá em circunstância alguma tarefa fácil, quer opte pela continuidade, quer o faça pela inovação. Explico-me: Apesar do IC ter tido em tempos senão mais amplas competências, pelo menos actuação em mais largo espectro, ainda assim as que possui justificariam por si só a transformação da intituição numa secretaria do Governo. Isto, por uma razáo fundamental, que é o facto do Centro Histórico da cidade estar classificado pela UNESCO como património da humanidade e também pelas outras muitas razões particulares que lhe competem. É vasta a área. Mas, até agora, quando se fala em cultura, a visão, converge quase institivamente para os espectáculos do Centro Cultural. Afora o instinto, espraia-se a vista por outras áreas e o que se vê? Com certeza menos do que seria de contar e muito menos do que se poderia aspirar. Na área da música o espectáculo às vezes até pode ser proporcionalmente grandioso tendo em conta as dimensões da RAEM, como é o caso do Festival Internacional de Música, mas mesmo assim é curto e pouco. Curto e pouco é também a “lamiré” por que se afina o diapasão geral nas outras áreas. Os exemplos estão patentes nalgumas vetustas instituições, como a Biblioteca Central, por exemplo. Pergunta-se que iniciativas tem este organismo dinamizado para além de se manter aberto ao público? Saíu alguma vez fora de portas a promover um autor, ou um tema, ou a evocar uma efeméride? Provavelmente tê-lo-há feito, mas se o fez as atenções gerais não parecem ter sido despertadas a ponto de se notar alteração substancial na rotina da casa. O mesmo se pode dizer do Arquivo Histórico. Repleto de livros, alguns preciosos, e documentos inéditos do maior interesse, alguma vez pensou em reeditar, obra rara? Alguma vez promoveu a publicação de manuscritos, ou de colecções que possui, para além dos boletins bibliográficos? Ali do outro lado das Portas do Cerco, o estado encarrega-se de editar tudo quanto se sabe de antemáo que nenhuma editora privada pegaria por falta de atributos comerciais, mas que se possa revelar de interesse, nem que seja para uma diminuta minoria. É essa aliás a obrigação de qualquer estado, ou seja, acorrer aos interesses das minorias que por o serem passam ao lado das regras do mercado, ficando de outro modo inexoravelmente condenadas a viver na frustração de uma mediania geral. No que toca ao tal “Património da Humanidade”, continuará o IC, a limitar a sua acção (até agora meritória sem dúvida) a caiar, pintar e robocar as paredes dos edifícios e áreas classificadas, ou haverá finalmente projectos mais ambiciosos, que imprimam vida e instilem dinamismo e inventividade nas velhas paredes e nos calcorreados espaços? Ate quando continuará, por exemplo, o Teatro D. Pedro V, a ser palco apenas de bravos amadores que podem fazer prodígios, mas que por o serem conseguem mostrar-se apenas não mais do que umas raras vezes por ano? Quando é que o casarão de Talma se vai transformar finalmente, naquilo para que foi erguido, ou seja albergar companhia própria a tempo inteiro que crie escola? No que repeita à actividade privada, nomeadamente levada a cabo pelas associações das mais diversas índoles o que se vai passar daqui para a frente? Será que os subsídios, mais ou menos avulso, para exposições, ou outras iniciativas, que já têm tradição enraizada em Macau, darão lugar finalmente a uma política corente dotada de objectivos claros no sentido de estimular a arte e as letras, mas principalmente de contribuír para que o panorama local ganhe consciência de si e identidade própria? Estará empenhado o IC em contribuir decisivamente para a definição de uma cultura de Macau? Adiante se verá, como soi dizer-se, mas em qualquer caso as responsabilidades de Ung Vai Meng são evidentes e pesadas. Se optar pela continuidade, não poderá deixar de o fazer melhor. Se optar por desamarrar do porto onde a instituição tem acostado, terá de manobrar com inteligência e segurança já que daqui à barra a distância não é grande mas o mar chão da cultura promete sempre procela mais alterosa do que proporcional de cada vez que se agita. Em jeito de conclusão nunca será demais lembrar que Macau se encontra numa situação que se diria quase impar. Enquanto em muitos outros locais, a realidade dos orçamentos obriga a opções por vezes dolorosas entre a cultura e outros valores sociais, aqui é necessário apenas ajuizar com rigor a validade dos projectos orçamentais, sem gestos predulários, mas também sem priveligiar inutilidades preventivas nas rúbricas da poupança.

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