Macau 1913: Dossier revolução encerrado 09-03-10

Macau 1913: Dossier revolução encerrado

O apoio de Macau às correntes liberais, republicanas e socialistas da China, sempre foi um segredo peculiar, ou seja era guardado mais ou menos tacitamente por quase todos os jornais, mas generosamente partilhado pelas tertúlias e pelos círculos de amigos e conhecidos que deambulavam pelos bares e restaurantes dos clubes e hotéis da cidade.

Durante as primeiras três décadas do século XX, Macau constituiu um palco conspirativo variado e colorido, onde quase todas as correntes políticas do universo de então tinham os seus propagandistas.

Republicanos, socialistas, agentes “vermelhos” do Comintern, anarquistas, sindicalistas, e até fascistas (pasme-se) por aqui viviam e conviviam, geralmente na melhor das harmonias.

Provavelmente porque o verdadeiro palco das guerras reais, ou ideológicas que se travavam ficava do outro lado das Portas do Cerco, ou então longe, nas florestas do Vietname, ou da Malásia, ou mais longe ainda, na remota Europa.

Pelas rotativas das tipografias locais, tudo se imprimia, desde folhas volantes a jornais de combate, nas mais diversas línguas e caracteres.

Os jornais de parede eram quase tão comuns então como os “grafitti” de hoje e a ousadia (ou romantismo) era de tal ordem que até o jornal “La Você de L´ Popolo” órgão do movimento anarco-sindicalista italiano, se vendia, (imagine-se) numa farmácia chinesa! Isto até ser apreendido e o proprietário da ervanária intimado a nunca mais expor à venda tal título em Macau. Resta saber quem o compraria?…

Mas se o ambiente geral era de certa descontracção, ou seja uma espécie de longa e extemporânea “belle epoque”, já o mesmo não se podia dizer quanto ao estado de espírito dos responsáveis do governo e da segurança, que tinham por obrigação zelar pela manutenção do “decoro político”, de forma a que eventuais exageros ou atitudes arrebatas, não pusessem em causa o sempre delicado relacionamento diplomático entre Portugal e a China por causa de Macau.

Yuan Shikai, o general que queria ser imperador da China

Um desses momentos surgiu na segunda metade do ano de 1913, na sequência do golpe de estado de Yuan Shikai, que dissolveu a Assembleia Nacional e afastou Sun Yat-sen, da presidência da república.

A Grande base de apoio político de Sun era sem dúvida Cantão e foi para ali, que o dirigente retirou com os seus fiéis disposto a opor-se ao velho general, que queria ser imperador.

Yuan Shikai talvez o tivesse sido, se a morte não o levasse no momento em que todas as alterações constitucionais necessárias estavam prontas para declarar a restauração da monarquia.

Sun Yat-se em uniforme militar

É pois em Cantão, que Sun organiza, o seu próprio partido, o “Kwomintang” (Nacionalista).

Mas Sun, não se limita a uma retirada estratégica da capital, preferindo desafiar o novo poder declarando a cessação de Cantão. No entanto a “república cantonense” duraria muito pouco, já que em Outubro, o exército sob o comando supremo de Yuan Shikai, exterminava os rebeldes, acabando com as veleidades republicanas.

Para se eximir ao aniquilamento total, não restou alternativa aos dirigentes do “Kwomintang”, senão a fuga, para local que garantisse a segurança a curto prazo e não ficasse longe. Por isso o destino óbvio foi Macau e Hong Kong.

Macau era local a privilegiar para o efeito, relativamente a Hong Kong, porque para além da complacência das autoridades coloniais com que os republicanos contavam, muitos deles, incluindo Sun Yat-sen, possuíam na colónia portuguesa profundos laços familiares. Além disso uma terceira razão contribuía para a escolha.

É que a Inglaterra, esclareceu desde logo, que não estava disposta naquele caso, a conceder asilos políticos, acabando por expulsar os que ali se tinham refugiado provisoriamente.

Diz-se, que o próprio Sun, também se terá acolhido durante um curto período em Macau, antes de seguir para o exílio no Japão, país onde esperaria pacientemente, o momento propício para regressar.

Esse momento, todavia só chegaria em 1916, com a morte inopinada, mas politicamente oportuna de Yuan Shikai. O desaparecimento do prestigiado militar monárquico, criou um vazio de poder e desencadeou uma luta generalizada, entre os generais das várias províncias, dando início ao dramático período dos “senhores da guerra” que fraccionou quase por completo o país criando simultaneamente as condições para o regresso de Sun.

Entretanto muitos dos seus principais lugares tenentes, tinham, preferido permanecer em Macau, o que causou sérios embaraços à administração portuguesa, liderada pelo governador Aníbal Sanches de Miranda.

De facto, a instalação dos rebeldes em Macau, rapidamente chegou aos ouvidos de Pequim, que exigiu através do governador-geral de Cantão, Long Chai Cuang, a detenção e repatriamento dos suspeitos.

A carta do governador Long, a Sanches de Miranda, é explícita e pormenorizada, quando se lhes refere dizendo: -…pude verificar que estão em Macau e que às ocultas se reúnem para aliciar adeptos, tendo até fixado dia para virem a Cantão fazer a revolução”.

Os termos do pedido de extradição não deixavam grande margem de manobra ao governo português.

Mas o pior era que a sua presença tinha sido corroborada por Lou Lim Iok, o líder da comunidade chinesa local, numa reunião mantida no palácio do governo com Sanches de Miranda e o representante na Colónia do governo chinês.

Perante isto a decisão tomada foi a de abrir um inquérito, cometido à Procuradoria dos Assuntos Sínicos, instituição que possuía competências de polícia política. Tarefa atribuída pelo melindre de que se revestia ao próprio procurador, Constâncio José da Silva.

Saliente-se neste ponto que Constâncio aliava às suas funções de procurador dos assuntos sínicos, as de director do principal jornal de Macau (“A Verdade”).

Constâncio, inicialmente tentou eximir-se, mas perante as ordens taxativas de Sanches de Miranda decidiu começar por ouvir formalmente em declarações, o próprio Lou Lim Ioc. No entanto este, em vez de se demonstrar desconhecedor da questão preferiu afirmar (candidamente?), ter sabido pelos jornais que os procurados, entre eles, Sun Yat-sen, Sun Mei e Chan Kuen Meng, tinham sido banidos de Hong Kong e que, costumava ver entrar alguns deles com frequência em casa de Chan Chec Iu (outro procurado pelo governo de Cantão), frequentando todos o “Clube China”.

O “Clube China”, era igualmente lugar suspeito de ser de facto um dos principais centros conspirativos da cidade, estando por isso sob a vigilância da polícia. Essa vigilância devia-se principalmente ao facto de dele também serem frequentadores, vários funcionários públicos portugueses, entre os quais alguns conhecidos pelo seu pendor radical e simpatias pela causa de Sun Yat-sen.

Lou Lim Ioc acrescentava saber também que “todos eram adversos ao actual regime de governo da China”.

Perante essas aparentemente surpreendentes declarações, Constâncio José da Silva que esperava que uma alegação de desconhecimento com o peso da palavra de Lou Lim Ioc, lhe permitisse encerrar o processo sem mais delongas informando oficialmente que os visados não estavam em Macau, terá ficado muito mais alarmado, ao obter tão completa informação sobre nomes e paradeiros dos suspeitos, do que satisfeito, por estar ao seu alcance prendê-los e encerrar os autos com sucesso.

É que a forma como lhe tinha sido apresentada a questão deixava claramente a entender que o processo não passaria de um expediente para permitir ao governo português uma negação plausível. Ou seja Macau não dava guarida a fugitivos à justiça chinesa.

Por esse facto, o inquérito teve de ser levado a cabo com maior rigor, desencadeando-se as diligências formais em tais eventos que passavam pela identificação e audição dos referidos na denúncia.

No entanto para além do que disse Lou Lim Ioc, não constam dos autos as declarações de mais ninguém, mas apenas uma informação esclarecendo que Chan Chec Iu, “se encontrava doente em casa sem poder receber visitas”. Este era um impedimento que, pelos vistos, incluía as da polícia. Chan Chec Iu, também, nunca seria ouvido.

Quanto aos restantes declarava-se que nenhum possuía residência, em Macau, ficando omisso se, se encontravam ou não na cidade.

Terminadas as diligências que se impunham, Constâncio José da Silva, encerrou o inquérito da forma que lhe pareceu mais airosa em tão peculiares circunstâncias concluindo que. – “A falta de mais elementos sobre a preparação de uma revolução impedem a continuação das investigações nesse sentido”.

As anomalias do processo e a aparente ingenuidade das conclusões do chefe da polícia, que teriam levado qualquer magistrado a ordenar pelo menos a continuação das diligências, senão mesmo uma admoestação por falta de zelo, não despertou qualquer tipo de interrogações na mente do Governador, que tranquilamente redigiria a 20 de Dezembro de 1913, uma carta dirigida ao seu homólogo de Cantão, informando “ter os suspeitos sob vigilância e não permitir qualquer acção de desestabilização contra a China”.

Oficialmente o Governador Long Chai Cuang terá aceite como boas as explicações de Sanches de Miranda, já que não se regista qualquer insistência da China no sentido de obter as extradições.

Certo é que Sun Mei, irmão de Sun Yat-sen continuou a residir tranquilamente na sua mansão fronteira ao Jardim da Flora (actualmente Casa Memorial Sun Yat-sen).

Chan Kuen Meng (Chen Jiaoming), general e jurista

Por seu turno Chan Kuen Meng, continuou igualmente a desenvolver intensa actividade política inicialmente a partir de Macau e mais tarde de  Hong Kong, reorganizando as tropas que lhe tinham permanecido fiéis na província de Guangxi, até conseguir desferir o golpe militar, vitorioso em Cantão que culminou com a constituição de um governo republicano alternativo, novamente chefiado por Sun Yat-sen.

Chan Kuen Meng faria parte deste governo como governador militar (1920-23). Chan que era acusado de estar ligado ao movimento de Liu Chi Fu (considerado o ideólogo do anarquismo chinês), haveria mais tarde por romper politicamente com Sun Yat-sen, por defender contra as opiniões centralistas deste, a ideia de uma China federalista. O diferendo levá-lo-ia a retirar-se mais tarde, da política activa fixando residência em Hong Kong, onde se manteve como opositor irredutível do “Kwomintang”, até à sua morte em 1933, vítima de uma febre tifóide.

Nota: exceptuando o caso de Sun Yat-se, a grafia dos restantes nomes, segue a que é usada na documentação portuguesa da época consultada sobre o assunto.

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