O congresso secreto do Partido Comunista do Vietnam em Macau 23-02-10

Reuniu esta semana o primeiro congresso do Partido Comunista do Vietnam (PCV). O congresso realizou-se entre os dias 27 e 31 de Março no Hotel Cantão.

Os delegados aprovaram uma resolução política apelando à mobilização dos operários e camponeses, jovens, mulheres, soldados e minorias étnicas para que numa frente unida formem milícias para combater o imperialismo.

O congresso aprovou igualmente os estatutos do Partido e as suas organizações de massas, tendo eleito os 13 membros do Comité Central, com Lee Hong Phong, como secretário-geral.

Nguyen Ai Quoc (Ho Chi Min), foi eleito representante do Partido junto do (Comintern) Internacional Comunista.

A eleição de Lee Hong Phong, para o cargo de secretário-geral do PCV, não deixou de revelar alguma surpresa tendo em conta que Ha Huy Tap, era anteriormente dado como mais bem posicionado para o cargo.

Este relato sobre a realização do primeiro congresso do PCV, poderia ser a reprodução de uma das páginas dos jornais de expressão portuguesa de Macau, de 1935, se a notícia não tivesse ficado silenciada, assim permanecendo até hoje, já lá vão 75 anos.

Porém a omissão histórica não será de estranhar. Por um lado, devido ao facto da censura do Estado Novo, vigorar com todo o rigor em Macau (governava então o Território António Bernardes de Miranda, que viria mais tarde a ser chefe de gabinete do Presidente, Óscar Carmona). Por outro, tendo em conta que o congresso se realizou secretamente, pelo que nem os jornais chineses locais, que a censura oficiosamente ignorava, a ele tiveram acesso.

O secretismo da reunião dos fundadores do PCV, não extravasou para os jornais da época, mas não deixou de transpirar, pelo menos em certos círculos.

Tanto assim foi, que já nos anos 80, do século passado, Monsenhor Manuel Teixeira, o mais prolífico divulgador da história de Macau, na coluna semanal que mantinha no extinto jornal “Gazeta Macaense”, dava conta de que Ho Chi Min, tinha estado em Macau e aqui fundara o PCV.

Monsenhor Manuel Teixeira, que tinha “vasculhado” tudo quanto era arquivo no Território, manifestava no entanto surpresa pelo facto de não ter encontrado um único documento que se referisse directamente a tais eventos.

Este facto tem tanto de anómalo como de significativo, no que toca a saber-se qual o grau de controlo das autoridades portuguesas, designadamente os agentes locais ligados à PVDE (polícia política portuguesa).

Mas mais anómalo se torna se se tiver em conta que em Macau funcionava também o “bureau” do Extremo Oriente, do Comintern, organização que estava então na mira das polícias do mundo não comunista em geral e das colónias ocidentais na Ásia, em particular.

O Comintern, era a designação dada à “Terceira Internacional”. Fundado por Lenine em 1919. Tinha como objectivo, lutar contra o capitalismo, estabelecer a ditadura do proletariado, e implantar o socialismo, como forma de  transição para uma sociedade, sem classes, com a abolição do Estado burguês, utilizando para isso todos os meios disponíveis, inclusive a luta armada.

O Comintern estava dividido em oito secções, uma das quais era o Secretariado Oriental. Este Secretariado, por seu turno, estava dividido em três departamentos: Extremo Oriente, Médio Oriente e Próximo Oriente.

A Secção do Extremo Oriente, que coordenava a luta revolucionária tinha a sua sede precisamente em Macau.

As actividades revolucionárias do Comintern, à data eram lideradas por Ho Chi Min, Jean Cremet e Le Hong Fong, este baseado em Macau e encarregado do sector de agitação e propaganda, dirigida em especial à Indochina francesa.

Jean Cremet

Ho Chi Min e Jean Cremet, eram ambos fundadores do Partido Comunista Francês, de que Cremet, tinha sido, pouco antes de partir para o Extremo Oriente, segundo secretário-geral.

Figura enigmática do Comintern, Cremet tinha a seu cargo o controlo das actividades do Comintern, efectuando diversas missões nomeadamente na China, Japão e Coreia a partir das bases instaladas em Macau, Hong Kong e Xangai. Cremet actuava na região utilizando documentos falsos, sob vários nomes supostos entre os quais o de Thibault. Macau deve tê-lo conhecido por este apelido que era o que mais frequentemente usava.

No entanto, Cremet, sairia de cena pouco antes do primeiro congresso do PCV, de um modo tão misterioso, quanto viveu. De facto, durante a grande luta política travada entre Estaline e Trotsky, Cremet foi um dos que se absteve na votação, que determinou a expulsão do número dois, do Partido Comunista Soviético (PCUS).

Tendo até certa altura sido um dos homens de confiança de Estaline, em França, Cremet, sabia que com essa atitude abstencionista se declarava para todos os efeitos inimigo de Estaline e assim assinava literalmente a sua própria sentença de morte.

De facto, ao longo das décadas seguintes Trotsky e os seus partidários seriam inexoravelmente perseguidos e liquidados, na União Soviética e um pouco por todo o mundo, até o próprio Trostky acabar por ser assassinado no México (20 de Agosto de 1940).

Daí o facto de Dimitri Manuilsky (1883-1959), presidente do comité executivo do Comintern, que tinha também responsabilidades sobre Portugal e as suas colónias, ter nomeado Cremet, para o Extremo Oriente, a fim de o proteger politicamente, afastando-o do centro mais aceso do teatro da luta entre trotskistas e estalinistas.

Refira-se que Manuilsky, viria a ser dos poucos dirigentes do Comintern, que sobreviveu às sucessivas purgas levadas a efeito por Estaline.

Nessa conjuntura, Cremet entendeu ser melhor entrar na clandestinidade da clandestinidade, simulando a sua própria morte em Macau.

O Comintern chegou mesmo a anunciar, que Cremet tinha morrido afogado num acidente quando viajava num dos “ferry-boats” que faziam a ligação entre Macau e Hong Kong, em 1931.

A partir daí a controvérsia gerou-se havendo quem defendesse que o revolucionário tinha sido assassinado por agentes da GPU (polícia política soviética).

Na verdade, Cremet, com a ajuda do escritor André Malraux, limitou-se mais uma vez a mudar de identidade. Regressou à Europa e passou a viver na Bélgica com o nome suposto de Gabriel Peyrot, até à sua morte em 1973.

Com o desaparecimento de cena de Jean Cremet, Ho Chi Min, que com ele tinha fundado o PCV, em 1931 em Hong Kong, assume as suas responsabilidades na secção extremo oriental do Comintern, regressando a Moscovo, razão pela qual não integra o núcleo duro da liderança do PCV em Macau 4 aos depois.

Refira-se que o “bureu” de Macau, do Comintern, dedicava-se particularmente à subversão na Indochina, embora controlasse as actividades revolucionárias no Sião (actual Tailândia) e Indonésia.

No Território a organização comunista, entre outras actividades dedicava-se à impressão de propaganda revolucionária, que enviava para aquelas regiões do sudeste asiático, atribuía missões aos seus militantes no interior dos países alvo e mantinha um posto de transmissões via rádio, que assegurava comunicações rápidas dos agentes do Comintern da região com Moscovo via Vladivostoque e vice-versa. Essa central de comunicações clandestina coordenava também o trabalho dos agentes espalhados um pouco, por todo o Extremo Oriente.

A razão da escolha do hotel Cantão, como local para a realização do congresso, parece óbvia. Tratava-se de um pequeno e discreto edifício, estrategicamente situado numa ruela ainda mais discreta, nas traseiras do Grande Hotel, que este sim, concitava todas as atenções.

Simultaneamente, ficava a poucos metros do principal terminal de passageiros de Macau, facto que lhe conferia vantagens evidentes para quem vivia e viajava na clandestinidade.

Porém a escolha de Macau como local para levar a efeito o congresso não pareceria tão óbvia, tendo em conta, por um lado o facto do Comintern estar também, baseado em Hong Kong e por outro a pequenez da colónia portuguesas, onde as notícias demoravam menos a correr a cidade de boca em boca do que a serem impressas  e distribuídas pelos jornais.

Por muito secretismo em que estivesse envolvida a reunião efectuada ao longo de 5 dias não deixaria, por todos os motivos, de despertar atenções.

Dir-se-ia então, que Hong Kong, seria, local mais adequado para o efeito tendo em conta as suas muito maiores dimensões, em termos geográficos e demográficos, tal como bem maior em diversidade cosmopolita.

Para isso poderão ser aventadas várias explicações, mas a principal terá a ver com o facto de em 1932, a organização do Comintern, em Xangai ter sido infiltrada pela “surete” (polícia política francesa), que prendeu vários elementos do Comintern e apreendeu documentação comprometedora, desmantelando a rede activa naquela cidade.

A acção da “sureté” em Xangai, levou a que lhe caíssem nas mãos os nomes de muitos dos agentes da subversão na Indochina e consequente emissão, contra eles de pedidos de captura internacionais contra os que alegadamente residiriam nas colónias ocidentais da China e em Singapura.

Ho Chi Min

Entre os visados encontrava-se Ho Chi Min, que no âmbito das suas actividades circulava constantemente, entre Hong Kong, Cantão e Macau. Ho era concretamente acusado de implicação na revolta anti-colonialista da Indochina de 1931, brutalmente sufocada pelo exército francês.

Ho Chi Min, acabaria por localizado em Hong Kong e preso, pelas autoridades britânicas. Todavia em vez de ser extraditado para Hanoi, o tribunal que julgou o caso, decidiu apenas expulsa-lo da colónia britânica, o que lhe permitiu refugiar-se de novo em Macau.

Acresce a tudo isto, o facto do governo de Hong Kong, alarmado pela crescente actividade dos grupos militantes de esquerda na colónia, que segundo as autoridades “se contavam por milhares” ter aumentado em 1930, o efectivo da polícia em 15% , com mais 300 elementos e criado dentro da corporação, um “special branch” (departamento especial) exclusivamente dedicado à vigilância e luta contra os  comunistas.

Esta atitude de Hong Kong, contrastava em absoluto com Macau, onde a atitude das autoridades primava pela passividade.

Isto apesar da década anterior ter sido politicamente uma das mais turbulentas da sua história no século XX.

De facto, em 1922, a tensão explodiu, com a eclosão de manifestações violentamente reprimidas pelas forças armadas que deixaram no terreno várias dezenas de mortos e centenas de feridos, e por uma greve geral que paralisou o Território durante mais de um ano.

Tudo isto tinha sido fomentado pelas várias associações nacionalistas e socialistas de variados matizes políticos, que actuavam legalmente em Macau.

Oficialmente registadas e alegadamente fiscalizadas pela polícia da Repartição da Administração Civil (RAC), a verdade é que o conhecimento que o Governo delas tinha não passaria muito além dos nomes dos corpos gerentes e objectivos gerais a que se propunham, informações de preenchimento obrigatório nos formulários, que a RAC visava, antes do registo notarial de qualquer associação, segundo mandava a lei.

A análise desta conjuntura laxista e persistente em Macau, terá sido por isso, determinante na escolha do Território, para a realização do congresso fundador do PCV.

Aliás, analisando os vários relatórios da RAC, que se encontram depositados no Arquivo Histórico de Macau, muito sobra sobre denúncias de actividades subversivas, por parte de associações (à data contavam-se em Macau mais de uma centena, devidamente registadas) ou elementos seus, mas muito pouco consta concretamente, sobre eventuais actividades subversivas que levariam a efeito. Muito menos ainda surgem referências às tendências ideológicas que professavam.

Percorrendo os jornais da época parece constatar-se que a ignorância sobre o que se passava entre a comunidade chinesa de Macau, era norma e realidade assente.

Um conhecimento mais exacto sobre a agitação revolucionária que submergia a Europa, o mundo em geral e o Extremo Oriente em particular, incluindo a China, não seria muito melhor.

Os jornais iam dando conta do caos da guerra civil chinesa, com notícias avulso sobre revoltas, declarações políticas, golpes e contra golpes, mas na verdade pouco esclareciam, se é que não contribuíam ainda mais para adensar a confusão no espírito dos leitores.

Ao consultar-se os jornais da época pareceria que a guerra se desenrolava em qualquer ponto longínquo do globo e não ali mesmo ao passar o arco das Portas do Cerco.

As agências noticiosas internacionais, com destaque para a “Reuters”, eram as grandes fontes de informação de Macau sobre o difuso palco da guerra civil chinesa e é através delas, que é estampada na imprensa local a que mais aproximadamente refere a existência do Comintern.

Trata-se de uma local incerta na Voz de Macau, denunciando a presença em Cantão do “perigoso bolchevista Borodino”.

Borodino (Mikhail Markovich Gruzenberg), era um agente do Comintern, enviado para a China, por Moscovo em 1922. Seria um dos principais conselheiros de Sun Yat-sen, até 1927, período em que perdurou um conjuntural  “flirt” do partido nacionalista (Kuomintang), com a União Soviética, mas que terminaria com o sangrento massacre da ala esquerda do partido, levado a efeito por Chang Kai Shek. 

Como excepção à regra de falta de informação sobre as actividades do Comintern em Macau regista-se apenas a existência de um processo aberto pela RAC, na sequência de um pedido do secretário português da “Entente International contre la IIIe Internacionale” para o envio de uma relação de todos os estrangeiros residentes em Macau. Porém não se sabe que resposta obteve esse pedido, ou sequer se a ele foi dado sequência

O primeiro congresso do PCV, em Macau, é considerado como aquele em que foram delineadas as linhas mestras para a reconstrução do Partido Comunista da Indochina (segundo consta da história oficial do PCV) que na altura compreendia os actuais, Vietname, Laos e Cambodja.

O congresso realizou-se também num momento particular da história do movimento comunista internacional, com a realização em Moscovo, do VII congresso do Comintern, que consagrou a política das frentes populares contra o fascismo.

Resta acrescentar que as decisões tomadas em Macau seriam consideradas transitórias sendo posteriormente, sucessivamente revistas em plenários subsequentes, o primeiro dos quais teria lugar no ano seguinte (1936), já no interior do próprio Vietname.

Lee Hong Phong Secretário-geral do PCV (1935-36), eleito no congresso secreto de Macau

O mandato de Lee Hong Phong, não duraria muito, já que seria substituído logo, em 1936, por Ha Huy Tap, que com ele tinha disputado a liderança do PCV, no ano anterior, no congresso do Hotel Cantão.

Lee Hong Phong, acabaria juntamente com quase toda a direcção do PCV, por cair nas mãos das autoridades francesas que decapitariam quase por completo a liderança do PCV.

Lee seria preso e executado, juntamente com o seu sucessor Ha Huy Tap, bem como o sucessor deste, Nguyen Van Cu, em 1941.

A verdadeira hora de Ho Chi Min só chegaria em 1951 com a sua eleição para o cargo de presidente do Partido Comunista do Vietname.

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