Quando poupar é prejuízo 26-01-2010

Manter ou aumentar mais valias é objectivo legítimo de qualquer empresário. Deste facto resultam naturais pressões no sentido fazer vigorar a política do quanto mais baixo salário melhor. Custos da mão de obra é em muitos casos o que melhor se pode controlar, já que os outros essencialmente dependem de factores exógenos às empresas.

No entanto o método, se capaz de suster perdas, ou aumentar lucros, na generalidade, nunca acrescenta progresso, ou desenvolvimento mas antes, estagnação económica e recuo social e económico.

Porém essa filosofia parece estar instalada e bem instalada em Macau e nem a chegada dos novos operadores do jogo, com vistas mais largas, oferecendo salários que em muitos casos duplicavam, ou mesmo triplicavam, os praticados no Território, anteriormente, parece ter contribuído, pelo menos de uma maneira sensível, para alterar o “status quo ante”.

Se bem me lembro o impacto, limitou-se a algumas concessões nas condições laborais de algumas empresas, que passaram a encerrar ao sábado, uns relutantes ajustamentos salariais e pouco mais.

Ainda assim, é certo que se registou um aumento significativo no nível de vida das pessoas, nos últimos anos, e a inflação continua, quase, a não se fazer sentir. Todavia tal não significa que Macau viva no melhor dos mundos. Bem pelo contrário. Há sectores, onde a filosofia subjacente de contenção salarial se reflecte de forma evidente, com os resultados negativos que lhe são consequentes.

O sector da saúde constitui um exemplo de que essa política, nada pode trazer de benéfico, nem para os cidadãos em particular, nem para o desenvolvimento de Macau, em geral.

Outro exemplo pode observar-se no sector da educação, ainda que com menor evidência, ao nível docente.

Na saúde, segundo os últimos de que disponho (2007), Macau contava com 1226 médicos e 1335 enfermeiros, profissionais estes, que serviam respectivamente: 473 e 430 habitantes, situação que se encontra acima da média mundial. Não está mal!

As existências, em termos de instituições de saúde (hospitais, centros de saúde e clínicas), parecem também, por enquanto, capazes de dar conta das ocorrências. Isto apesar do numero de camas de internamento, ficar por 1.9, por cada mil habitantes, muito abaixo, por exemplo, da média europeia, que se cifra em 3 camas por milhar. Em matéria de equipamentos, tanto a nível privado como público a situação parece igualmente ser, pelo menos, razoável.

Todavia o que se verifica na prática é que apesar de todo o equipamento existente, falta quem o opere com proficiência e apesar das camas, falta quem preste os cuidados especializados de quem nelas se aleita.

Neste ponto, há que citar algumas situações que parecem paradigmáticas. No hospital público, existem há anos especialidades por preencher. E quais as razões para isso? Uma delas (porventura a mais importante) terá a ver com as condições e níveis salariais praticados, tanto no que diz respeito à classes médica, como paramédica.

A abertura de um dos últimos concursos para o preenchimento de vagas de especialidade no sector público, levado a cabo em Portugal, resultou numa razoável afluência de interessados e terminou com a sua desistência em massa. Dos muitos, só um médico, se dispôs a fazer as malas e embarcar para, Macau. Os restantes consideraram as condições oferecidas muito menos do que atraentes, mesmo para um recém licenciado.Outro exemplo. O Hospital Kiang Wu, inaugurou, creio que o ano passado, uma nova e luxuosa ala. No entanto, muitos dos casos que ali dão entrada são reencaminhados para o Centro Hospitalar Conde de S. Januário. Por falta de especialistas?

Por outro lado é notável a maior afluência aquele hospital em certos dias da semana. Porquê? Porque é nesses dias que ali se deslocam reputados médicos de Hong Kong.

Por outro lado, ainda, (estatísticas não existem), mas serão muitas as pessoas, que se deslocam à vizinha RAEHK, ou ao Bunrumgrad, na Tailândia, para se tratarem, ou apenas, efectuar análises clínicas de rotina. Tudo isto, evidentemente, porque desconfiam da capacidade das instituições locais.

É necessário pôr termo a esta situação. Para isso não seria mal pensado começar primeiro, pela alteração das tabelas salariais. Depois pela criteriosa escolha dos locais onde recrutar especialistas. Em seguida, pela verificação cuidadosa das credenciais das instituições de onde são oriundos, não deixando de assegurar, a genuinidade das credenciais, bem como o nível técnico do pessoal a recrutar, que deve corresponder às mais altas exigências.

Com estes passos dados, creio que seria então possível começar a pensar (por enquanto tudo não passa, de castelos no ar) a sério, no caminho a seguir para instituir em Macau, uma tão necessária faculdade de medicina.

No âmbito da educação,  creio que a receita poderia ser semelhante. Mas a educação tem as suas próprias especificidades. Poderá caber, por isso, no âmbito de outra reflexão.

Seja como for, creio que antes de apostar na tecnologia de ponta é preciso cuidar de saber onde está o material humano que a saiba utilizar. Se não existir por cá que se busque lá fora, mas bem. O melhor é uma mais valia que custa dinheiro. Por vezes muito dinheiro. Mas, nem sempre a poupar é que se ganha e neste caso concreto, poupar continua a ser prejuízo evidente.

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