Macau liberal e Macau republicano 09-02-2010

No ano em que se comemora o centenário da implantação da República em Portugal, Macau tem a responsabilidade (como afirmava aqui a semana) de olhar para o papel que desempenhou, na divulgação do novo ideário que desde a Revolução Francesa (1789), vinha alterando a pouco e pouco, as estruturas de poder por todo o mundo.
Macau só tem que se orgulhar pois foi, nesta matéria, precursora.
De facto, não poderá deixar de se salientar, que imediatamente após a revolução liberal do Porto de 1820, Macau, durante cerca de um ano, governou-se autonomamente. Expulsou o governador e o ouvidor (figura esta, que era uma espécie de primeiro-ministro), representantes do governo do reino e transferiu o poder para o município (então chamado Leal Senado), com a eleição livre de uma nova vereação, num movimento de contornos acentuadamente republicanos.
Esse período da história de Macau, ainda relativamente mal estudado, pode ser conhecido com alguma profundidade através da obra: “ A História e os Homens da Primeira República Democrática do Oriente”, que tem como subtítulo; Biologia e sociologia de uma ilha cívica. O livro é da autoria do antropólogo Almerindo Lessa.
Claro que a “Primeira República Democrática do Oriente”, foi Sol de pouca dura. O restabelecimento do antigo regime em Goa, de quem Macau dependia administrativamente, na organização política ultramarina de então, faria com que dalí fosse enviada, uma expedição punitiva, que depois de um prolongado bloqueio do porto acabaria por obter a rendição do Leal Senado e proclamar de novo o absolutismo antes reinante.
Este fenómeno não, surgiu por acaso, mas antes como efeito da presença no Território de uma colónia americana assinalável, mas principalmente de um grande número de militares brasileiros, alguns dos quais desempenhariam poucos anos depois papéis do maior destaque, na independência do Brasil e no governo desse novo país.
Na verdade, enquanto em Portugal, ou em Goa, se discutia liberalismo e absolutismo, em Macau já se falava em República. Alguns textos exemplares sobre novas ideologias, podem ser lidos nas páginas do primeiro jornal impresso no Extremo Oriente, “A Abelha da China”. Este jornal que, durou também, tanto quanto durou a autonomia macaense, ou seja, cerca de um ano, pode ser consultado no Arquivo Histórico e vale a pena fazê-lo. Aliás, o periódico, dirigido por um padre dominicano, despertou tais iras, que acabaria por ver o seu último número queimado em “auto de fé”, à porta do Leal Senado, em Agosto de 1822. Como se com esse acto pudessem ser queimadas as ideias que os seus libelos disseminavam semanalmente pelo espírito dos cidadãos.

O jornal foi queimado, mas o que nele foi escrito não deixou de exercer influência indelével na cidade. A própria comunidade chinesa a isso não terá ficado alheia, pois seria para Cantão, que muitos dos principais dirigentes da revolta liberal local fugiriam à frente das baionetas dos soldados do comandante Garcês Palha, chefe da expedição, que afastaria o Leal Senado, nomeando vereação a seu gosto e assumindo o cargo de governador até ao total restabelecimento da velha ordem política.
Neste ponto convém salientar que alguns dos fugitivos, acabariam por ser acolhidos em Cantão, continuando dali a incendiar os ânimos de Macau, através da publicação de jornais e folhas volantes que muitas dores de cabeça haveriam de causar pelos anos seguintes aos governadores de Macau.
Isto até o liberalismo triunfar definitivamente em Portugal e Macau, aceitar a Carta Constitucional, promulgada em 1826, por D. Pedro IV.
Desde então, Portugal mudava de rosto político, mas Macau, também. Em curso idêntico embarcaria a China, menos de duas décadas depois.
De facto, seria a partir de Cantão, que a maior sublevação de sempre teria lugar contra a dinastia Ching, reinante em Pequim. Tratava-se da revolução “Tai Ping”, que durante doze anos assolou o império (1851- 1864).
Este verdadeiro cataclismo que chegou a envolver um exército revoltoso de mais de 20 milhões de homens armados, seria finalmente detido às portas de Pequim, pelas forças imperiais. Todavia depois da revolta dos “Tai Ping”, também a China política não voltaria a ser a mesma. Novas ideias começavam a germinar e o trono do “celeste império” começava a vacilar seriamente.
Desta vez, muitos dos dirigentes, ou simples combatentes da revolta, regressariam a Cantão e alguns procurariam o único refúgio seguro que se lhes apresentava na China: – Macau.

Assim se pode explicar a presença em Macau, de algumas figuras centrais que participaram, no primeiro processo de liberalização da China, conhecido como a reforma “Wuxu”, ou “Reforma dos Cem Dias”, durante o reinado do imperador Guangxu (1875/ 1908), que acabaria por ser frustrada por um golpe de estado das forças conservadoras.
Entre essas figuras conta-se Liang Qichao. Monárquico liberal, Liang Qichao, desenvolveu em Macau, intensa actividade política, através dos jornais, chegando a fundar alguns, promovendo a difusão de círculos literários e instituindo até escolas.
Outra figura contemporânea daquela seria Zheing Guanyin (a sua residência, na Rua da Barra, acabou de ser restaurada, a semana passada pelo Instituto Cultural de Macau e transformada numa casa museu.), o teórico reformador, igualmente monárquico, de que falamos já aqui, anteriormente. Este teria sido o principal mentor ideológicos de Sun Yat-sen, nos primeiros anos da sua juventude, mas não só.
Juntamente com Sun Yat, encontravam-se igualmente activos em Macau outros jovens revolucionários, que igualmente tinham bebido nos princípios de Liang Qichao e Zheng Guanyin, embora de carizes políticos mais radicais. Destes os mais célebres foram sem duvida, Yang Heling, Chen Shaobai, Guan Xinyan e You Li, que constituíam o que viria a ser o famosos “bando dos quatro”, ou seja um dos primeiros e mais activos embriões da subversão republicana na China.
As actividades de todas as figuras acima citadas, não passavam de modo algum, despercebidas às autoridades portuguesas de Macau, todavia poucas vezes seriam incomodados, mesmo quando levavam a cabo públicas manifestações contra o regime chinês, nomeadamente nos teatros da cidade.
Pedidos de captura dos agitadores eram amiúde enviados pelas autoridades de Cantão, mas certo é que nenhum surtia efeitos práticos. Macau, independentemente dos governadores que se iam sucedendo, optava sistematicamente por fazer “vista grossa” ao que se passava.
Nesta conjuntura desempenhavam inestimável papel de medianeiros, Francisco Hermenegildo Fernandes, jornalista e proprietário de vários jornais e o advogado António Basto, um dos mais conceituados causídicos de Macau.
Como pano de fundo em toda esta cena de oficiosas cumplicidades perfilava-se a Maçonaria (juntamente com a “Carbonária”, estas associações secretas desempenharam papel fundamental no derrube da monarquia portuguesa) a que Francisco Fernandes pertencia.

A Maçonaria contava também nas suas fileiras com uma boa parte dos governadores que administraram Macau, pelo menos, a partir da segunda metade do século XIX.

De entre muitos, destacaram-se, Francisco Isidoro Guimarães, o governador que mais tempo esteve à frente dos destinos de Macau (12 anos) e o Conselheiro, Custódio Miguel de Borja. Este chegou mesmo a ser o grão-mestre da Maçonaria portuguesa. Para além dos governadores variadíssimos outros funcionários civis e militares da administração local nela igualmente estavam filiados.
Resta assinalar que o papel de Macau, na história da China moderna, tem sido obliterado, em parte pelo que nela desempenharam Hong Kong e Xangai. Todavia, o seu não foi menor. A grande ignorância, que reina sobre o assunto, reside apenas e só numa questão de bibliografia. É que o que se sabe sobre os últimos duzentos anos da China, está largamente documentado na universalidade da língua inglesa. O que não se conhece está escrito, ou publicado quase exclusivamente em português. Não será muito, mas convinha universalizar um pouco mais esse conhecimento.

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