É imperioso assinalar 02-02-2010

Passa este ano um século sobre a data da implantação da República, em Portugal (5 de Outubro de 1910). O centenário não é apenas, mais uma, das muitas efemérides patrióticas, mais, ou menos perdidas nas brumas da memória, que pontuam o calendário politico português. Por isso o Estado, entendeu por bem, não só lembrar oficialmente o dia 5 de Outubro, mas implementar uma vasta gama de iniciativas que preencherão todo o ano. Para o efeito criou a Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República, que tem como principais objectivos os seguintes:

a) Evocar historicamente os acontecimentos de 1910 e honrar a memória daqueles que se entregaram à causa da República;

b) Promover a reflexão colectiva sobre a identidade nacional, os valores da República e o desenvolvimento e o futuro das instituições políticas;

     i. Identificar desafios que se colocam à sociedade portuguesa;

     ii. Contribuir para a renovação da relação entre a República e os cidadãos;

     iii. Mobilizar os mais novos para a participação cívica;

     iv. Aprofundar o debate em torno da ética republicana do século XXI;

     v. Reforçar a identidade nacional;

c) Aprofundar e divulgar o conhecimento histórico-científico sobre a República;

d) Dinamizar iniciativas culturais diversificadas capazes de mobilizar a participação alargada da sociedade portuguesa, especialmente junto das gerações mais jovens e das comunidades portuguesas no exterior.

Segundo o próprio doploma, que cria a Comissão, uma das suas dimensões comemorativas será necessariamente virada para o conhecimento do ideário republicano, dos valores que legitimaram o novo regime e dos acontecimentos e protagonistas da sua história. Mas, como advertiu a Comissão de Projectos, encarregada de definir o enquadramento das comemorações, há que evitar uma visão passadista, contrapondo-lhe uma preocupação prospectiva.

No texto acima citado, parece-me relevante o carácter prospectivo, que se pretende imprimir às comemorações, por contraposição às tais brumas da memória e formais ritualismos, mais, ou menos vazios em que invariavelmente, se envolvem este género de efemérides. Quer seja o próprio, 5 de Outubro, o longínquo, 1º de Dezembro de 1640, ou mesmo, o muito mais recente 25 de Abril de 1974. Isto, só para citar feriados do calendário oficial de Portugal.

Mas mais relevante parece ser ainda, a intenção expressa no ponto d, do mesmo texto que visa especialmente a mobilização e participação das comunidades portuguesas no exterior. Parece-me que neste ponto as comemorações devem ser particularmente assinaladas em Macau. Não por qualquer papel relevante que o território tenha desempenhado na proclamação da República em si mesma, mas sim pelo seu papel na implantação de duas repúblicas. A portuguesa e a chinesa. Aliás, o centenário, desta última, assinala-se no próximo ano (1 de Outubro de 1911).

Passo a explicar-me.

No que à comunidade portuguesa de Macau diz respeito, o fermento republicano sempre foi sensível, nomeadamente através da presença no Território, de vários altos funcionários civis e militares, incluindo governadores que pertenciam à Maçonaria, organização secreta, tida como principal aríete do derrube da monarquia em Portugal. Essa situação fazia com que se criasse um ambiente receptivo às novas ideias, que igualmente germinavam na China. Daí não ser de admirar que, grandes e influentes figuras da revolução chinesa, tenham escolhido Macau. Umas vezes como base de apoio da subversão do regime imperial, outras como local de refúgio temporário, sempre que as marés políticas corriam adversas.
Neste contexto, é de relevar a acção, por exemplo, de Lou Kao e seu filho Lou Lim Iok, líderes da comunidade chinesa de Macau, que ao longo de duas gerações, consertaram esforços locais, no sentido de prestar apoio aos revolucionários chineses e simultaneamente garantir, que o governo português, não hostilizava essas forças.
Assim foi possível, desde a segunda metade do século dezanove, que Macau, desempenhasse um papel relevante (maior do que as suas dimensões geográficas deixariam supor), em vários momentos da história da China. Tanto no período da primeira tentativa de transformação do império numa monarquia constitucional, como a seguir na implantação da República.
Mesmo mais tarde, na proclamação da República Popular (1949), Macau, também, desempenhou o seu papel, embora este último período permaneça ainda bastante na obscuridade, por falta de estudos e também, naturalmente, porque os acontecimentos ainda se encontram demasiado próximos para serem devidamente estudados.
De salientar também, no contexto da fundação das duas repúblicas do início do século XX, a acção relevante da imprensa clandestina chinesa de Macau, que durante décadas inundou a China, com novas ideias. Não esquecer também que um dos maiores pensadores da China moderna, Zheng Kwan Yin, escreveu no território algumas das suas mais influentes obras.
Finalmente e porventura, não menos importante, será lembrar as íntimas ligações do fundador da República Chinesa, Sun Yat-sen a Macau.
Por tudo isto parece-me duplamente imperioso que os portugueses celebrem este centenário, das mais diversas formas e que, nele se procure empenhar também, a comunidade chinesa. Celebrar por exemplo, alguns perfis que figuram na toponímia da RAEM , seria uma das formas de o fazer. Mas com certeza haverá outras. Haja vontade.

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