Caminhos novos 12-01-2010

Olhando para a década que findou não se pode dizer que Macau mudou, mas sim que está apenas em mudança. Uma mudança que está muito longe de se ficar pela conclusão dos edifícios semi-acabados, ou ainda em projecto, das concessionárias do jogo. Bem pelo contrário. Muito para além do jogo, há sinais claros de que a mudança não só está em pleno curso, mas em vias de se aprofundar podendo até trazer eventuais surpresas para quem possa pensar que tudo começou com o fim do monopólio de Stanley Ho e termina com a consolidação do novo oligopólio ainda em fase de acabamento. No horizonte parecem claros os sinais de que as coisas não serão assim. Nesta perspectiva é necessário ter em conta que Macau, tal como Hong Kong, deixaram de ser a espécie de ilhas mais, ou menos isoladas da China, a ela apenas ligadas por laços de estrita interdependência económica. Igualmente estão também e muito rapidamente, a deixar de ser as portas privilegiadas necessários da RPC, para o mundo exterior. O facto de o Brasil, se estar a constituir como um dos principais parceiros da nova, China global, com investimentos bilaterais gigantescos, directamente acordados entre Brasília e Pequim, sem necessidade de intermediários, é exemplo notório disso mesmo. A China abriu-se ao mundo, faz parte da OMC, está a tomar um papel cada vez mais activo na ONU e na generalidade do conserto das nações. Por todas essas razões Macau, não possui alternativa de afirmação para salvar a identidade e importância estratégica, que não seja descolar definitivamente da sua pesada história feita de ciclos de opulências e crises decorrentes de endémica aposta em monopólios e comércios exclusivos. Ou seja Macau vai ter mesmo que se reinventar. Seja por motu próprio, ou forçada por circunstâncias exteriores. A mudança é sempre difícil de aceitar, em qualquer caso. Muito mais quando Macau conhece como agora um ciclo de abundância. Todavia nesse processo o Território pode contar com a ajuda preciosa de Pequim que, não parece de modo algum disposta, ou interessada em coarctar eventuais novos rumos pelos quais Macau, decida enveredar. Os sinais da China neste sentido parecem também ser claros. Porventura menos pelo que as mensagens deixadas pelos dirigentes dizem e bem mais pelo que omitem. As várias declarações públicas do Presidente Hu Jintao, na sua última deslocação ao Território, por ocasião das celebrações dos dez anos da transição, são disso exemplo quando louva uma década de progresso, escusando-se quase cirurgicamente a referir-se ao papel que os casino tiveram nesse progresso, omissão esta que parece carregada de significado. É que num projecto global de desenvolvimento em que a China se encontra empenhada no Sul da sua província de Guangdong, a diversificação não é uma mera sugestão de Pequim, mas um imperativo que vale igualmente para Hong Kong, Região que continua a depender do seu estatuto de praça financeira e dos seus alicerces na construção civil, tão pesadamente como Macau depende do jogo. Outra mensagem clara nesse sentido foi também já expressa, aquando da divulgação dos planos de desenvolvimento conjunto da ilha da Montanha, ao ficar a saber-se que neles não caberiam novos casinos. Assim sendo o investimento noutras áreas, mesmo que vistos à partida como demasiado arrojados, ou mesmo irrealistas, ganha nova consistência à luz dessa inevitável integração que está a construír-se sob o nosso olhar ainda que disso não demos a devida conta. A projecção de Macau como centro internacional de criação artística, ou polo de saber através do ensino superior, ou mesmo centro de excelência em matéria de cuidados especializados de saúde são projectos que cabem nessa conjuntura. Finalmente e tendo em conta que na RAEM, vigora o segundo sistema, que a China não pretende pôr em causa, por qualquer intromissão intencional, ou inadvertida, a responsabilidade pelos caminhos do futuro fica inteiramente por conta da capacidade imaginativa da população, dos agentes investidores e do novo governo de Macau. Exactamente por esta ordem.

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