Atenção à cultura 19-01-2010

Ponte é coisa que fica a meio caminho entre dois pontos. É pois, por definição, um local de passagem e nunca um local de fixação. Sendo assim, para qualquer antropólogo, seria hercúleo trabalho, senão evidente perda de tempo, deter-se a estudar a caracterização demográfica de quem por uma ponte circula. Nas pontes ninguém se fixa. Nem mesmo os operários que têm por missão fixar as ditas. As pontes são os estreitos resultados úteis da necessidade de ligar anónimos entre margens.

Lí, há alguns anos, um artigo de alguém, que elaborava sobre este tema referindo-se à Tuquia, como ponte entre a Ásia e a Europa, para concluír que aquele país da Anatólia, circulava sobre o Bósforo, entre duas civilizações sem pertencer a nenhuma. A Turqia vive, quereria dizer o autor, no lodaçal aquoso e indefenido de todos os juzantes salobros. Vinha esse artigo a propósito da eventual adesão de Ancara, à União Europeia, que continua frustrada.

O argumento parece-me convincente e por isso mesmo para mim assustador, quando vejo a frequência com que o conceito de Macau, como ponte entre o Oriente e o Ocidente, é grafado, na comunicação social e consequentemente também impresso na mente das pessoas.

O conceito surge amiúde e principalmente, em artigos de imprens, bem como nos diversos “media”. O que é preocupante, nos média, é-o apenas na medida em que consagra o “chavão” produzindo os efeitos nefastos e conhecidos da propaganda da mentira que mil vezes repetida acaba por ser aceite como verdade, por todos, ou quase todos.

Porém, mais preocupante ainda, é o facto de ser utilizado também, quase com igual profusão, em obras de caracter cietífico escritas por, académicos e autores consagrados, nos mais diversos estudos e nas mais diversas áreas, ou por políticos responsáveis, nos seus discursos de circunstância.

Sendo tratado neste âmbito já me parece inaceitável, continuar a grafar Macau, como se de uma entidade inexistente se tratasse, atendendo ao que o conceito de “ponte” transmite de profundo e consequente em termos de caracterização identitária, ou melhor, de ausência dela.

Macau, não pode, em minha opinião, ser assim divulgada, ou estereotipada. Não só porque não o é, como acaba por incitar ainda que subconscientemente a que se negligencíe, o facto, quanto a mim indesmentível, de possuir tudo, menos as características de uma ponte. Ainda se lhe chamassem “feira”, como polo de acorrência de viandantes de vários mundos, vá que não vá. Agora ponte!?

Macau não é uma ponte. Poderia ser quando muito, um pequeno universo inopinadamente característico, que funda os seus pilares há mais de quatro séculos, numa base de areia um tanto movediça, mas surprendentemente contida em inusitado anel de resistente metal, que a sustém nos seus limites confinados sem ter alguma vez dado sinais de qualquer desagregação, nem  remota, nem eminente.

Porém, se as pontes, por definição, não são locais para viver, a solidez das margens só existe, se o cimento ideológico onde se habita fôr sólido e duradouro e sabe-se bem que como a resistência das pontes é definida pela capacidade dos cabos de aço que as sustentam.

Nos agregados humanos esses cabos não são feitos de aço, mas de cultura.

Em Macau convivem duas culturas claramente marcantes: – chinesa e lusofona. Mas Macau não vive entre duas culturas. A RAEM, é de há muito uma simbiose, que vem benificiando das contribuições de quem vem de fora e quem chega não é oriundo de nenhuma portugalidade, ou sinização uniformitária.

Bem pelo contrário, os elementos culturais que se registam surgem essencialmente sub-complexos dessas matrizes e de outros mais. Fujian, Xangai, Cabo Verde, Angola e actualmente, por influência do desenvolvimento económico, elementos culturais anglo-saxónicos mantêm e simultâneamente forjam-lhe a identidade.

Neste contexto multicolor em que parece reinar, a abundância no apoio orçamental ás géneses multipolares que por aqui circulam, parece igualmente evidente a inexistência de uma política cultural própria, abrangente e orientadora.

Assim pode citar-se a reduzida dotação orçamental do Instituto Cultural, quando comparada com a de algumas instituições de igual, ou menor dimensão. A persistente quase-ausência de um ensino curricular secundário próprio. O adiamento sucessivo do arranque da nova Biblioteca Central, que lhe permita constituir-se como centro irradiador de actividades culturais, que não só de exclusivo acesso à leitura. Ou a produção de trabalhos científicos, sendo neste caso de lembar a angústia contida no clamor de um magistrado que há alguns meses denunciava a carència de jurisprudência produzida pelo Tribunal de Última Instância (não sei se falta só jurisprudência, se também jurisconsultos…).

Os que citei são apenas casos, ainda que porventura exemplares, num conjunto de carências que tardam, não só, a ser resolvidas, como pior do que isso a ser mesmo encaradas como uma verdadeira prioridade.

Perante tudo isto volto à alegoria da ponte. A conservação dos cabos é condição essencial para a preservação da estrutura. No caso da cultura os cabos que a sustentam carecem igualmente de manutenção adequada. È preciso oleá-los contra a corrusão e substituír os fios velhos. Mas antes disso é necessário que acorram ao conserto os necessários “engenheiros de almas”, mas livres e genuínos, que se têm visto pouco.

Caso contrário, o tabuleiro cai, estilhaça-se e finalmente, dilui-se no grande rio continental uniforme, onde sempre navegou uma diversidade de embarcações.

Nesse caso, no que toca à torrente do rio, não se registará diferença significativa. Já o mesmo se não dirá para o corpo dissolvido.

Felizmente que Macau não é uma ponte. Quando muito poderá ser um entreposto que lá vai atravessando todas as crises, com melhores, ou piores resultados de balanço, mas sempre longe de qualquer risco de falência.

Advertisements

Leave a comment

No comments yet.

Comments RSS TrackBack Identifier URI

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s